Crítica: ‘Com amor e fúria’, um mundo quase reduzido ao inferno conjugal

Claire Denis fecha o foco em torno do casal formado por Sara (Juliette Binoche) e Jean (Vincent Lindon), protagonistas de “Com amor e fúria”. Literalmente. Ambos são mostrados por meio de uma sucessão de closes — em rostos e outras partes do corpo. A impressão é de que não existe quase nada além deles e do que sentem. Até porque sentem de modo passional. A felicidade, predominante nas primeiras cenas, não dura. O público logo começa a acompanhar o processo de desestabilização atravessado pelos dois a partir do instante em que François (Grégoire Colin), com quem Sara se relacionou de maneira intensa, reaparece.

Mas a cineasta, escorada no romance de Christine Angot, deixa claro que os personagens, apesar de mergulhados em suas instabilidades afetivas, não vivem dentro de uma bolha, recortados do resto da Humanidade. As sequências centradas no trabalho de Sara — que, como radialista, realiza entrevistas sobre racismo e situações conturbadas em outros lugares do mundo —levam a essa constatação. Não são os únicos momentos em que o isolamento de Sara e Jean é rompido. A questão da pele volta a surgir numa conversa entre Jean e o filho negro, Marcus (Issa Perica) — o pai, porém, aborta um eventual desenvolvimento desse debate. A realidade externa também se impõe nas informações sobre Jean, que passou um período na prisão e tenta agora reestruturar a trajetória profissional.

O aspecto mais interessante do filme reside na habilidade de Denis — que saiu do Festival de Berlim de 2022 com o Urso de Prata de melhor direção — em transmitir o estado emocional dos personagens através das imagens (os mencionados closes claustrofóbicos na fotografia de Eric Gautier) e não apenas do discurso. Mas a abordagem do tema propriamente dito —a insegurança de um casal a partir da retomada do contato com um terceiro elemento — não se destaca na comparação com produções sobre o mesmo assunto. Talvez uma característica específica do cinema de Denis seja a valorização da intimidade feminina, que, em “Com amor e fúria”, vem à tona quando Sara expressa fisicamente o impacto do reencontro com François. Esse dado, contudo, se manifesta em passagens breves e, por isso, não ganha maior consistência. E, considerando o perfil pouco sedutor de François, a indecisão de Sara não bate na tela com total credibilidade.

Restrições à parte, cabe elogiar a angustiante trilha sonora (a cargo da banda Tindersticks) e as sólidas interpretações de Binoche e Lindon, que já tinham sido conduzidos por Denis em filmes anteriores.