Crítica: Com Chopin, Nikolai Lugansky arrebatou a plateia em São Paulo

O virtuoso Nikolai Lugansky — que os cariocas presenciarão nesta quinta-feira (23) pela Série O GLOBO/Dellarte — foi o convidado da série Cultura Artística, na Sala São Paulo, na última terça-feira. Junto com a Orquestra Filarmônica Real de Liège, tocou Chopin. E arrebatou a plateia.

Conduzida pelo jovem húngaro Gergely Madaras, a orquestra belga prepara bem o terreno para Lugansky. Abriu a noite com a profunda melancolia do compatriota Guillaume Lekeu (1870-94), prodígio que morreu de tifo aos 24 anos. A obra, “As flores pálidas da memória”, é um adágio para cordas que cumpre o papel de defender uma joia da coroa belga sem intoxicar demais a plateia.

Relações diplomáticas resolvidas, começa o show. O programa apresentou o “Concerto nº 1 em mi menor, Op.11”, de 1830. Quando a compôs, Fryderyk Francisek Chopin tinha 20 anos, morava em Varsóvia e, ainda não consagrado, já demonstrava capacidade de encantar.

Aos 50 anos, Lugansky tem porte atlético e mãos de raquete. Quando se fala de piano, essas dimensões de certa forma importam, porque geram facilidade em almas menos brutas. Assim, o Chopin de Lugansky se destaca por refinamento, delicadeza e precisão. Íntimo do “Concerto nº 1”, o russo atravessou as passagens mais difíceis com a coluna sempre ereta e eventuais sorrisos de satisfação técnica, encantando pela naturalidade. Faz imaginar o potencial lírico que pode extrair do “Concerto nº 2”, previsto para hoje, no Rio.

Durante a apresentação, foi impossível não sentir certa “brasilidade” do concerto, o que na realidade é o efeito reencontrando sua causa. A presença de Chopin em Paris irrigou postumamente muito do que se produziu tanto num Rio extremamente francófilo como no esforço mais “ocidentalizante” que formou a tradição musical da Rússia de Lugansky. A familiaridade dos nossos ouvidos com os ecos desse lirismo que conversou com modinhas, chorinhos e bossa nova facilita o trabalho do pianista, mas o que Lugansky reacendeu em São Paulo foi como uma revelação.

Lugansky despediu-se com um terceiro movimento luminoso, respondendo ao desafio de fazer o piano dançar ao ritmo do krakowiak, e encerrou sua participação com a famosa “Fantasia-improviso em dó sustenido menor”, também do polonês. Notável tanto pela dificuldade rítmica de sua abertura quanto pela seção central, em que é fácil despencar no sentimentalismo, ela foi modulada com consciência de causa e aplaudida de pé.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos