Crítica: ‘Decisão de partir’ é ambíguo com ecos de ‘instinto selvagem’

Park Chan-Wook é mais conhecido por um estilo de cinema de ação cheio de firulas e violência gráfica (“Old Boy”, “Lady vingança”). Em “Decisão de partir”, no entanto, ele toma um caminho bem mais comedido, sem os espalhafatos retóricos e visuais comuns a seu cinema. E fez provavelmente seu melhor filme, com uma narrativa de um detetive insone e casado que começa a se fascinar por uma mulher suspeita do assassinato do marido, e a fascinação acaba por tornar-se obsessão. Ecos, naturalmente, de “Instinto selvagem” (Paul Verhoeven, 1992), mas o tom é mais próximo de uma possível fusão de “Zodíaco” (David Fincher, 2007) com “Atração fatal” (Adrian Lyne, 1987).

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O maior trunfo do filme é seu poder de ambiguidade. As cenas entre o detetive Hae-joon e a chinesa cuidadora de idosos Seo-rae se desenvolvem não como jogos banais de sedução, mas como instâncias-limite da profissão de cada um dos dois (ele monta tocaia em frente a casa dela ou zela pelo cuidado dela?; ela o ajuda a ter uma boa noite de sono com técnicas de relaxamento, ou cuida de um ser amado?). A tensão sentimental surge mais no jogo mental entre os personagens do que na carnalidade — disso, o filme não tem nada. Hae-joon, como detetive que é, parece querer desvendar o mistério definitivo. Seo-rae, esquiva e insondável, nunca revela toda a verdade e revela outras que desorientam mais ainda a investigação/processo da obsessão.

Apesar de um frufru visual ou outro — afinal, Park Chan-Wook —, “Decisão de partir” traga o espectador no caminho de perturbação dos sentidos de seu protagonista, e de quebra realiza a fusão perfeita do filme de investigação com uma história de romantismo desesperado.