Crítica: 'Don Giovanni' traz alívio ao legado de um Rio que maltrata óperas e mulheres

Estreada no dia do aniversário de 113 anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a encenação do "Don Giovanni" de Mozart, uma das obras mais populares de todo o repertório lírico, trouxe sentimentos ambivalentes.

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Embora houvesse a promessa – cumprida – de uma montagem que aponta a misoginia e a masculinidade tóxica dos dias atuais, o que foi mais perturbador para quem se importa com a cena carioca era: por que diabos uma ópera genial, engraçada e não insanamente difícil de pôr em cena levou 31 anos sem ser vista na maior casa do gênero do país?

São duros os caminhos que nos legaram tamanho desperdício – inclusive o fato de a temporada atual ter apresentado apenas em julho sua primeira ópera com encenação total. Ao menos, deve-se reconhecer o esforço da atual diretoria do Theatro Municipal. Sob o comando de Clara Paulino (presidente) e Eric Herrero (diretor artístico), o teatro tem demonstrado que existe um esforço em normalizar as atividades de um dos palcos mais disfuncionais do país, em que a pandemia esteve longe de ser o pior problema. Tudo isso, claro, pode estar em risco na próxima eleição.

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Curiosamente, esta retomada começa exatamente de onde o teatro parou. Diretor cênico do "Eugene Onegin" de 2019, última ópera encenada no Municipal, André Heller-Lopes concebeu um "Don Giovanni" extremamente ágil para as quase três horas de música. A ação se passa em meio a um sistema de cortinas, elaborado por Renato Theobaldo, que evoca a Catedral de Sevilha. Simples em seu efeito, a solução ganhou realce gradativo e justificativa com a iluminação perspicaz de Fabio Retti, impedindo que os figurinos luxuosos de Marcello Marques dominassem totalmente o olhar.

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"Don Giovanni", ou Don Juan para os íntimos, foi o libertino criado pelo frade católico Tirso de Molina (1579-1648) numa peça moralizante, de fundo filosófico, sobre os limites da liberdade. Mozart e seu libretista, Lorenzo Da Ponte, jamais esconderam a função moral da ópera, ao batizá-la alternativamente como "O Dissoluto Punido". Don Juan já ganhou inúmeras releituras, que realçaram diversas características, mas o que torna "Don Giovanni" uma peça eterna é a incrível injeção de humor e humanidade até que o destino do DG se resolva em pedra e fogo. Não são poucos os Giovannis que se aproveitam de anestesiadas para seus vícios criminosos, como se soube recentemente.

Nesse sentido, a montagem ganha muito pelo timing cômico do ótimo barítono Homero Velho (um Leporello hilário na ária do Catálogo), e da jovem soprano Sophia Dornellas, que entregou uma camponesa Zerlina em doses idênticas de ingenuidade e safadeza nos três duetos – sobretudo aquele em que o tapinha de Masetto (Murilo Neves, correto) não dói.

Eles circundam a presença física e vocal do chileno Homero Pérez-Miranda, ouvido antes no Rio como o Scarpia e Mefisto, que fez um Don Giovanni vocalmente sólido. O baixo-barítono só teve problemas no acompanhamento de "Finch'han del Vino", em que a Orquestra Sinfônica do Municipal lhe escapuliu, mas isso será fácil de corrigir. No geral, tanto o conjunto regido por Tobias Volkmann (próximo regente titular? A confirmar) quanto o coro tiveram boas apresentações, com dinâmicas precisas e força nos momentos dramáticos. O balé foi utilizado para fins cênicos, com resultados que certamente darão o que debater aos fãs, digamos, mais empedernidos da ópera.

Mais complicadas de acertar são as dificuldades com que a soprano Claudia Riccitelli (Donna Elvira) e Fernando Portari (Don Ottavio) enfrentaram seus papéis. Após ter feito o mesmo Don Ottavio há 31 anos, o tenor que incorporou neste ano o pesado papel de Peter Grimes (em Manaus) ainda tem pianíssimos delicados, mas sofreu diante das coloraturas de suas duas árias. Com relação a Riccitelli é possível dizer que foi salva das vaias pela função cômica injetada na personagem por Mozart e Da Ponte. Por fim, Dona Anna (a experiente soprano Ludmilla Bauerfeldt) foi absolutamente expressiva e carinhosa com as linhas melódicas do mestre austríaco, arrancando aplausos ao fim.

Cotação: Bom.

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