Crítica: 'Enquanto vivo' passeia entre a revolta, a lucidez e o humor

Câncer de pâncreas, estágio 4: metástase. Negação. Dor. Despedida. Se não quiser ou puder lidar com uma história erguida sobre esses temas, talvez seja melhor passar do outro lado da rua. “Enquanto vivo” convida o espectador a refletir sobre a morte.

Ao menos três aspectos relacionados a ela são entrelaçados nesse drama agridoce de Emmanuelle Bercot que valeu a Benoît Magimel (“A professora de piano”, “Uma garota dividida em dois”) o César — prêmio de maior prestígio no cinema francês —de melhor ator em 2021.

Nos cinemas: 'Ilusões perdidas', 'Assassino sem rastro', 'Enquanto vivo' e mais

'O homem do norte': Longa é espetáculo com muito estilo e toques de violência gráfica

Crítica de filme: Klondike mostra o horror da guerra sobre pessoas comuns

O primeiro aspecto, evidentemente central, diz respeito a quem protagoniza o fim da jornada: Benjamin, 39 anos, “ator fracassado” (em suas palavras) e professor de interpretação. Personagem no fio da navalha: revolta de um lado, lucidez de outro, e um tanto de humor para suportar a barra.

Shakespeare

Alguns traços de Benjamin lembram os do personagem de Michael Douglas na série “O método Kominsky”. As relações com os alunos possibilitam inserir na trama elementos intergeracionais (e também um pouco de Shakespeare).

A família de Benjamin corresponde ao segundo aspecto. No início, sua mãe (a incansável Catherine Deneuve, em seu 11º longa desde 2016) parece ocupar sozinha esse espaço. Aos poucos, abre-se uma portinhola incômoda para o passado do protagonista. O campo familiar se amplia e a dor também.

Por fim, o terceiro aspecto diz respeito à equipe médica que cuida de Benjamin. Na linha de frente, um oncologista (o médico libanês Gabriel A. Sara, que trabalha no hospital Mount Sinai, de Nova York, aqui no papel de alguém como ele) e sua assistente (Cécile de France, de “Além da vida” e “O garoto da bicicleta”).

Mais ao fundo, outros médicos, enfermeiros e arte-terapeutas que circulam num hospital cujo nome homenageia o médico francês Jean Itard (1774-1838), reverenciado por seu trabalho amoroso com crianças e inspiração para François Truffaut em “O garoto selvagem”.

A referência ajuda a compreender a ênfase de “Enquanto vivo” no trabalho dos profissionais dedicados a pacientes terminais. Cenas de uma oficina de sensibilização com alguns deles, ministrada pelo personagem de Sara, pontuam o filme.

Não é a primeira vez que a atriz, roteirista e diretora Emmanuelle Bercot aborda esse universo. Seu longa anterior, “150 miligramas” (2016), também estrelado por Magimel, baseia-se na história verídica de uma médica (Sidse Babett Knudsen, a primeira-ministra dinamarquesa da série “Borgen”) que enfrenta laboratórios e a Anvisa francesa.

Ao iluminar uma circunstância geralmente sombria, a da morte anunciada, “Enquanto vivo” funciona muito bem como filme destinado a reflexões em cursos de Medicina, de Enfermagem e de Psicologia, e em sistemas de saúde e hospitais. O que se vê na tela equivale a um extraordinário modelo de tratamento humanizado.

Extraordinário e, portanto, quase perfeito, inclusive na defesa de uma ideia controvertida: seria não só tolerável, mas desejável, que profissionais de saúde, em determinadas situações, manifestem as próprias emoções a seus pacientes. Cabe à angelical personagem de Cécile de France a ilustração dessa tese, proposta por Sara.

Pedregulhos

Coisas perfeitas, porém, não costumam combinar com dramas, em geral alimentados por pedregulhos e solavancos à espreita dos protagonistas. Aqui, eles se resumem a dois ou três fantasmas enfrentados com bravura por Benjamin — o título internacional do filme em inglês é “Peaceful”, ou “sereno”, “em paz”.

O uso de canções (“Lean on me”, “Rhapsody in blue”, “Nothing compares to you”, “Voyage, voyage”) contribui para elevar o astral. A mais reveladora, no entanto, é “Bye bye life”, da trilha de “O show deve continuar” , o filme autobiográfico de Bob Fosse sobre a morte.

“Enquanto vivo” tem moldura semelhante a esse clássico musical e se inspira claramente em alguns de seus momentos. Mas, ao contrário da jornada de Fosse, ancora-se em todos os que ficam e na vida que segue.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos