Crítica de ‘Era uma vez um sonho’: 'A dor da classe trabalhadora branca e pobre dos EUA'

Sérgio Rizzo
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Entre 2006 e 2019, Amy Adams recebeu seis indicações ao Oscar — uma como melhor atriz (por “Trapaça”) e cinco como coadjuvante (a primeira por “Retratos de família” e a mais recente por “Vice”). Não venceu em nenhuma ocasião. A mídia americana especula que a fila pode terminar graças ao drama “Era uma vez um sonho”.

Aos 46 anos, ela exibe, de fato, dois pré-requisitos para receber a estatueta: carreira já consolidada em filmes populares e de prestígio e agora uma “atuação de Oscar”, interpretando em dois momentos distintos uma mulher para quem a sorte não sorriu.

“Era uma vez um sonho” deve se beneficiar também de uma atípica corrida ao Oscar. A pandemia de Covid-19 restringiu drasticamente a oferta de filmes. Não se despreze, contudo, a habilidade do produtor e diretor Ron Howard (“Uma mente brilhante”, “Apollo 13”) em conduzir uma história engrandecedora que cai bem em tempos bicudos.

O protagonista dessa jornada de superação inspirada em história verídica é J. D., interpretado por Owen Asztalos na adolescência e Gabriel Basso quando adulto. Ele cresceu no interior do Kentucky e de Ohio, dois estados em que Donald Trump foi vitorioso nas eleições presidenciais de 2016 e 2020.

Apesar das circunstâncias, que tendiam a mantê-lo por lá em uma vida complicada como a de toda a família, ele consegue chegar à tradicionalíssima Universidade Yale, em Connecticut (estado liberal em que Joe Biden teve quase 60% dos votos), para estudar Direito.

O conflito de valores e comportamentos alimenta a trama, que vai e volta no tempo para apresentar a família e o meio social dos quais ele veio. Avô (Bo Hopkins), avó (Glenn Close, quase irreconhecível e também em atuação característica de Oscar), mãe (Amy Adams) e irmã (Haley Bennett) formam o seu cinturão de afeto.

Não é preciso ser psicólogo para identificá-la como uma família disfuncional, e Beverly, a personagem de Amy Adams, ocupa o epicentro do turbilhão. Aluna promissora, ela engravidou cedo e, apesar das dificuldades, formou-se em enfermagem. Mas a dependência de drogas (que inclui os homens com quem se relaciona) cobra seu preço.

Baseado nas memórias do advogado e empresário J.D. Vance, publicada no Brasil em 2017 com o mesmo título do filme, o roteiro de Vanessa Taylor (que escreveu “A forma da água” com o diretor Guillermo del Toro) trabalha discretamente o pano de fundo sociopolítico presente no livro, cujo subtítulo fala de “cultura em crise” (sociedade, na tradução brasileira).

Referências a eventos da agenda americana aparecem aqui e ali: o escândalo que envolveu o ex-presidente Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky, um pronunciamento do ex-vice-presidente e candidato presidencial derrotado Al Gore na TV, a “guerra ao terror”, fachadas de lojas com tapumes, fábricas abandonadas, gente sem emprego e sem casa.

Enquanto J.D. cresce e aprende a lidar com seus fantasmas, o cenário não ajuda muito: são os EUA da virada do milênio e da primeira década do século XXI, com a crise financeira de 2008 provocando estragos. No desenho da trajetória errante de Beverly, há um componente adicional que se revela aos poucos: o machismo e a violência contra a mulher.

A perspectiva, que tornou o livro de Vance best-seller nos EUA, é a da classe trabalhadora branca, pobre, conservadora e religiosa. Vance se apresenta como um cristão; a bíblia aparece discretamente em alguns momentos para sublinhar certos valores — e a dificuldade de aplicá-los no cotidiano.

Bonequinho olha

No original, livro e filme têm outro título: “Hillbilly Elegy”, ou “elegia Hillbilly”, referência ao termo usado para designar moradores de regiões rurais e montanhosas dos EUA, como os Apalaches (de onde se origina Vance). Que a visão do autor tenha recebido críticas de “hillbillies” lembra que sua relação com as origens é mesmo conflituosa.

No melodrama familiar dirigido por Howard, lamente-se que J.D. seja um personagem simplório perto da complexidade de Beverly (realçada por Adams). Trocar o ponto de vista de um pelo da outra configuraria um desvio da estrutura do livro, mas o ouro está ali.

Diretor: Ron Howard

Onde: Cine Casal Barra Point; Cine Santa Teresa; Espaço Itaú e Kinoplex Via Parque, Tijuca, Leblon, Rio Sul e São Luiz 1 (programação em rioshow.com.br).

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