Crítica: 'Esperando Bojangles', uma desconcertante história de paixão, no fio da navalha da sanidade

Riviera Francesa, 1958. Rolhas de champagne pipocam enquanto mulheres de chapéus e homens de smoking degustam a vida. Em cenário Fitzgerald, o extravagante Georges, faz sucesso: já esteve em tantos lugares e foi tantas coisas que nem sabe mais quem é. Logo, porém, os olhares mudam o foco: no terraço à beira-mar, surge a figura dionisíaca de Camille, em dança hipnótica. Meia hora depois, Georges e Camille, juram amor eterno e seguem em frente. Para o que der e vier.

E, de certa forma, assim será, neste desconcertante "Esperando Bojangles" – terceiro longa de Régis Roinsard, que assina o roteiro com Olivier Bourdeaut, autor do best-seller inspirador de 2016. Sem pudor, teremos na tela altos e baixos de uma paixão avassaladora, no fio da navalha da sanidade mental. Como maior trunfo, a química excepcional de Virginie Efira (de "Benedetta") e Romain Duris ("O Albergue espanhol", acompanhados de um pequeno grande astro: Solan Machado Graner, como Gary, o filho de 10 anos.

Da Riviera, corte para Paris, 1968. Barricadas e protestos explodiam nas ruas, mas os estilhaços jamais chegaram ao amplo apartamento alienado e burguês do casal totalmente fora de ordem: montes de cartas por abrir, aluguel atrasado, noites regadas a champagne. Na vitrola, a música "Mr. Bojangles", sucesso dos anos 60 na voz de Nina Simone, é mote contínuo para mais uma dança. Uma ave exótica e um amigo delirante com uma noiva russa, a Srta. Caipirovska, integram o quadro, pródigo em amor e humor mas também em negação da chamada “saúde mental”.

Vez por outra, Camille, que recusa ser chamada apenas por um nome, dá uma deixa: vive nos extremos, é a rainha das causas perdidas. Nada que champanhe não resolva. O menino tem problema na escola? Passará a estudar em casa. Lição materna: “Quando a realidade for triste e banal, invente outra. E escreva”. Que o casal não vive na real, o espectador percebe. Mas apenas na meia hora final deverá lidar com as consequências deste conto de fadas atravessado, com inserção de cenários espetaculares e paleta de cores fortes.

A guinada é radical e abrupta. Sinal de que o tempo pode passar sem que se dê conta, mas que um dia a conta chega. E o Bonequinho se dá o direito de poupar o leitor/espectador de spoilers que podem comprometer pelo menos dois terços de uma história de amor perfeita demais para ser verdade – e de fato, não era. Mas que teve sua graça enquanto durou, graças, principalmente, à figura luminosa de Virgine Efira e ao amadurecimento na marra do pequeno Gary.