Crítica: Excesso de referências em 'Matrix resurrections' causa pane no sistema

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'Matrix: Resurrections'

Para entender todos os erros do presente, é inevitável lembrar do passado. O primeiro “Matrix” foi lançado em 1999, poucos meses antes do Napster. O Google operava havia dois anos, o Facebook só surgiu em 2004. Era um momento de mudança, de uma cultura digital sendo desenvolvida. Games não eram mais coisa de criança. Um hacker era visto como um rebelde romântico e virou sonho de profissão de muito adolescente. Copyright? Esquece, a internet deveria ser democrática. Controle? Nem pensar, na rede o que imperava era a liberdade.

O primeiro “Matrix” falava bem com esse tempo. Tinha, claro, o verniz filosófico, mas não era nada mais do que velhas discussões sobre livre arbítrio e percepção da realidade aplicadas a novos meios. O barato do filme, e que permanece vivo até hoje, foi conseguir refletir perfeitamente a ruptura de uma geração.

Já “Matrix resurrections”, uma das produções mais aguardadas em muitos anos, não fala com tempo algum e não reflete nada além de cafonice e dos debates rasos de fóruns de internet.

O novo longa-metragem foi dirigido por Lana Wachowski, mesma cineasta da trilogia original (feita em parceria com a irmã Lilly), e mais uma vez traz Keanu Reeves como Neo e Carrie-Anne Moss como Trinity. A história começa com Neo e Trinity vivendo novas identidades dentro da realidade criada por computadores que eles sempre combateram, sem recordação de quem realmente são. A Matrix, neste novo simulacro (ou seria metaverso?), é apenas uma série de games desenvolvida por Neo e que faz muito sucesso.

Na primeira parte da história, antes de Neo optar pela pílula vermelha que mostra a verdade, o filme parece promissor. Há novos personagens que acrescentam camadas à mitologia de “Matrix” e outros que são reinventados (Morpheus agora é vivido por Yahya Abdul-Mateen II, e Smith, por Jonathan Groff). Mas o roteiro não se sustenta, ainda mais por duas horas e meia. Aos poucos, “Matrix resurrections” se transforma numa auto-homenagem, quase um pastiche de seu passado.

Tenta-se alguma emoção ao se centrar a trama no amor de Neo e Trinity, mas não é fácil suspirar por um casal com tanta cena de briga e frases de efeito no entorno. As sequências de ação, aliás, nem de longe são marcantes como foram aquelas dos personagens desviando de balas em slow motion e a câmera que capturava as lutas em 360 graus do primeiro filme. É apenas confuso.

E ainda tem a filosofia de botequim nerd, que a garotada tanto curtiu na trilogia de duas décadas atrás. Da produtora de games chamada “Deus ex-machina” às muitas citações ao coelho branco de “Alice no País das Maravilhas”, o novo “Matrix” perde mais tempo enfileirando referências do que contando uma história. Certamente logo haverá centenas de textos na internet, em vários idiomas, com um título na linha “Veja o que você não percebeu em ‘Matrix resurrections’”. Um conselho: nessas horas, opte pela ignorância da pílula azul.

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