Crítica de filme: 'Undine' conecta passado e presente da Alemanha e mantém dúvida entre real e alegoria

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O diálogo mais marcante de “Undine” é dito pela protagonista para um namorado, logo no início da história: “Você falou que me amava para sempre. Você não pode ir. Se você me deixar, terei que matá-lo”.

Estabelece-se, então, uma dúvida sobre as intenções da moça, se este “matar” é apenas figura de linguagem ou se haverá mesmo sangue escorrendo pelas mãos. A incerteza se estende para outros subenredos do filme, desde as detalhadas descrições sobre a formação da cidade de Berlim até a fantasia de uma mulher que respira embaixo d’água e namora um mergulhador. Afinal, o que é alegoria e o que é real em “Undine”?

O longa-metragem é dirigido pelo alemão Christian Petzold, e na autoria já fica a dica de que pode haver na história uma intenção de conectar o presente de seu país com o passado. Petzold é celebrado por obras como “Yella” (2007), “Barbara” (2012) e “Fênix” (2014), e seu cinema lida com as feridas deixadas pelas muitas transformações da Alemanha no último século.

No caso de “Undine”, a personagem Undine Wibeau (interpretada por Paula Beer) vive uma historiadora que recebe visitantes num museu e, em frente a uma maquete de Berlim, explica aos visitantes sua construção urbana. Mas Undine não é simplesmente uma historiadora qualquer. Ela é uma recriação do mito de Ondina, um ser místico das águas que já foi interpretado por autores de lugares e épocas diferentes, do dinamarquês Hans Christian Andersen ao alemão Friedrich de la Motte Fouqué, do francês Jean Giraudoux à turma da Disney.

E, como na maior parte das histórias clássicas, a Undine de Petzold não quer muito mais além de poder viver um amor.

Para chegar lá, o diretor explora a poesia do cotidiano. No trabalho, Undine segue uma rotina e se preocupa com a pressão de ter que preparar uma apresentação de um dia para o outros. Nos relacionamentos, ela sente ciúmes, calafrios e decepção. Apaixona-se num momento e se desilude em outro. Fica feliz quando um namorado chega de surpresa em seu apartamento, e fica com raiva quando outro não à espera na porta do trabalho.

A oposição de ter uma ninfa como Undine vivendo numa metrópole moderna como Berlim é o que Petzold parece buscar. A cidade está de olho no futuro, mas ligada fantasticamente ao passado.

O filme, contudo, é exageradamente sutil em suas intenções. Voltando à pergunta sobre o que é alegoria e o que é real, a própria história parece ter dúvida de que rumo tomar.

Bonequinho sentado assistindo.

Diretor: Christian Petzold. Onde: Estação NET e Cine Santa.

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