Crítica: Guillermo Del Toro faz deslumbrante releitura de 'Pinóquio' e conduz a lugares inesperados

Outro “Pinóquio”? Desde 1911, quando foi lançada a primeira versão para o cinema do clássico do italiano Carlo Collodi (1826-1890), o carpinteiro Gepeto e sua criatura de madeira deram origem a dezenas de filmes, telefimes e séries de TV.

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A Disney produziu a animação mais célebre, de 1940, e também um dos longas mais recentes, que saiu diretamente em streaming em setembro, com Tom Hanks como Gepeto. O diretor Matteo Garrone (“Gomorra”) e o ator Roberto Benigni revisitaram a fábula, igualmente em live action, três anos atrás

‘Stop motion’

Será que a história de Collodi, altamente dramática e simbólica, nunca se esgota? O diretor mexicano Guillermo Del Toro apostou nessa hipótese e se deu bem: seu “Pinóquio”, feito em parceria com o estúdio de Jim Henson (“Os muppets”, “O cristal encantado”), é uma deslumbrante releitura em stop motion.

Essa técnica de animação quadro a quadro, em geral com bonecos, deu origem a êxitos industriais como “O estranho mundo de Jack” (1993), produzido por Tim Burton para a Disney, e “A fuga das galinhas” (2000), do estúdio inglês Aardman.

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Em chave mais experimental, o stop motion sustenta curtas autorais, como “Dia estrelado” (2011) e “Guaxuma” (2018), da brasileira Nara Normande, e mesmo documentários de longa-metragem, como o excelente “Vicenta” (2020), do argentino Darío Doria, menção honrosa no festival É Tudo Verdade.

Nas mãos do diretor de “O labirinto do fauno” (2006), do vencedor de quatro Oscars (incluindo melhor filme), “A forma da água” (2017) e de “O beco do pesadelo” (2021), o recurso estético leva à criação de uma atmosfera predominantemente sombria, com elementos fantásticos, que fala mais a adultos do que a crianças (a classificação indicativa é 12 anos).

Como se um boneco de madeira já não fosse o bastante, Del Toro opta por criar um narrador ainda mais inusitado (voz de Ewan McGregor). Ele é quem nos conta como a guerra entrou na vida de Gepeto (David Bradley) para lhe arrancar algo precioso.

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Preso em um poço de dor, o carpinteiro resolve, um pouco à moda do Dr. Frankenstein, construir Pinóquio (Gregory Mann). Como no livro de Collodi, uma fada lhe dá vida. O que vem em seguida respeita as coordenadas básicas da história original, mas novas personagens (Cate Blanchett, Tilda Swinton e Chistoph Waltz brilham na dublagem) e situações a conduzem a lugares inesperados.

Um deles, talvez o mais perturbador, tem a ver com a ambientação histórica. Pinóquio vive na Itália fascista. A certa altura, essa fábula de caráter atemporal, impactada desde o início pela morte, parece conversar sobre aspectos do presente.

Mas, mesmo quando circunda esses temas, há frestas para a leveza — seja porque a animação em stop motion suaviza a abordagem, seja porque os diálogos têm humor (o roteiro é assinado por Del Toro e por Patrick McHale, das séries de animação “O segredo além do jardim” e “Hora de aventura”).

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Muitos ingredientes

Codirigido pelo animador Mark Gustafson, que trabalhou com Wes Anderson em “O fantástico Sr. Raposo” (2009), “Pinóquio” flerta também com a tradição dos musicais, trazendo nove canções compostas por Alexandre Desplat (Oscar por “O Grande Hotel Budapeste” e “A forma da água”), com letras de Roeban Katz e Del Toro.

Muitos ingredientes? Sem dúvida, mas alinhavados de forma exuberante em banquete visual que merece ser conhecido na tela grande dos cinemas.