Crítica: 'A hora e vez'

Patrick Pessoa

João Guimarães Rosa, autor de “A hora e vez de Augusto Matraga”, conto que encerra “Sagarana” (1946), é o Homero brasileiro, indiscutivelmente nosso maior poeta épico. Por mais que muitos de seus personagens vivam assombrados pelo medo do inferno e pela presença quase familiar do diabo — nisso o protagonista de “A hora e vez” se aproxima do Riobaldo de “Grande sertão: veredas” —, a ética que serve de fundamento a suas obras não é essencialmente uma ética cristã, mas antes uma ética guerreira ou, no caso brasileiro, cangaceira.

No âmbito dessa ética, o objetivo supremo da vida humana não é ser bom, inocente e puro para alcançar a imortalidade pessoal em um “outro mundo” pretensamente melhor do que este. A imortalidade buscada por guerreiros bem pouco cristãos como Aquiles e Augusto Matraga é a imortalidade poética. Para ambos, imortal é apenas aquele que consegue conquistar um nome próprio e inconfundível, que não chega atrasado ao encontro consigo mesmo e por isso merece ser cantado eternamente.

O mais original em “A hora e vez de Augusto Matraga” é a sua recusa da lógica da vingança, hoje adotada por ambos os extremos de nosso espectro político. Augusto é espancado quase até a morte pelo impiedoso major Consilva, mas se recusa a buscar aquele tipo de vingança que gerou reações catárticas a filmes como “Corra!”, de Jordan Peele, e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho.

Em vez de querer pagar na mesma moeda pela violência sofrida — assim permanecendo servil à lógica do opressor e vivendo em função dela —, seu objetivo é encontrar um outro registro existencial e transformar sua vida em poema a ser imortalizado pelos vates do futuro.

Se o objetivo do protagonista do conto era conquistar um tom e timbre novos, uma linguagem pessoal e intransferível para sua existência, pode-se afirmar que o ator Rui Ricardo Diaz, também responsável pela adaptação do texto para o palco, o realiza heroicamente. Sozinho em cena sob a direção de Antonio Januzelli, ele vive as muitas personagens da trama modulando com domínio técnico exemplar o timbre e a altura de sua voz. Se por um lado ele canta as personagens, indo muito além de uma apresentação didática do conto, por outro seu corpo as encanta, em movimentos coreografados com invejável precisão. Se, de início, o princípio estético (anti-naturalista) do espetáculo causa alguma estranheza, logo nos damos conta de que essa estranheza é a mesma que sentimos diante das invenções linguísticas de Guimarães Rosa. Sem dúvida, trata-se de uma das traduções mais felizes e poéticas da linguagem do autor para a cena.

Se é mesmo verdade que “cada um tem a sua hora e a sua vez”, como Augusto Matraga tantas vezes repete no conto de Guimarães Rosa, o rapsodo redivivo que é Rui Ricardo Diaz encontrou a sua hora e vez neste espetáculo extraordinário, verdadeiro bálsamo em um país governado por figuras mesquinhas movidas apenas pelo ressentimento e o desejo de vingança.

Teatro Poeirinha: Rua São João Batista 104, Botafogo — 2537-8053. Sex e sáb, às 21h. Dom, às 19h. R$ 60. 55 minutos. Não recomendado para menores de 16 anos. Até 12 de abril.