Crítica: 'The last of us' é uma obra tensa, fiel e um soco no estômago

O criador do jogo original e o produtor e roteirista de “Chernobyl” formam uma espécie de dream team nesta adaptação primorosa. A série “The last of us” é tensa e cheia de nuances tal qual o videogame que a inspirou. E a maior razão desse triunfo foi a decisão de sua equipe criativa de se manter fiel ao jogo.

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São sequências inteiras refeitas quadro a quadro. Diálogos reproduzidos linha por linha. Essa fidelidade a um trabalho tão bem realizado antes para o jogo ganha muito com a adição de um elenco fantástico e de talentos da indústria hollywoodiana que tornam o mundo digital do jogo em algo palpável e real na forma de figurinos e cenários grandiosos. As mudanças feitas para a série refinam e aperfeiçoam o que já era brilhante. A união do criador do jogo, Neil Druckmann, com Craig Mazin, a mente por trás da ótima minissérie “Chernobyl”, resultou em uma espécie de casamento perfeito.

Quando foi lançado para o Playstation 3, em 2013, “The last of us” foi considerado por muitos críticos o mais cinematográfico dos videogames. Na produção da HBO, os fãs do original vão curtir os muitos detalhes escondidos em cada fotograma. Mas o mais importante desta nova série é sua capacidade de ampliar o alcance do jogo. Levar a história a um novo público, que jamais passaria 14 horas no videogame ou assistindo aos gameplays na internet.

O espectador é atingido logo nos primeiros minutos com uma sequência tão devastadora que pode ser comparada a um soco no estômago. O mundo é devastado quando um fungo mutante transforma as pessoas em assassinos sanguinários. Para tornar a história mais assustadora, principalmente à luz de um mundo afetado pela pós-pandemia de Covid 19, o parasita da série é uma versão turbinada do cordyceps, um fungo que existe, mas que felizmente só afeta insetos. Pelo menos por enquanto.

Nesse mundo sem esperança, o amargo contrabandista Joel (Pedro Pascal, melhor a cada novo papel), e sua namorada Tess (Anna Torv, a Olivia da série “Fronteiras”) são contratados para uma missão aparentemente suicida a pedido da ativista Marlene, interpretada pela atriz Merle Dandridge (a Grace, de “Greenleaf”). Ela foi única pessoa a interpretar a mesma personagem no jogo e na série. Joel e Tess devem levar a adolescente Ellie (Bella Ramsey, devorando cada cena) de Boston, na Costa Leste, até um laboratório no outro lado dos Estados Unidos. Essa jornada cheia de riscos, perdas e descobertas é também uma busca por redenção para Joel.

Uma das adições bem-vindas foi trazer para o primeiro plano histórias e detalhes que, no jogo, estavam nos diários e cartas encontrados pelos personagens. Muitos jogadores nunca leram esses contos paralelos que ajudavam a dar dimensão ao universo ficcional. Aqui elas vão pro primeiro plano, gerando alguns dos melhores momentos da temporada, com destaque para o terceiro episódio, que traz Nick Offerman (de “Parks and Recreation”) no papel de Bill, um sobrevivente solitário que precisa decidir se confia ou liquida um prisioneiro.

Filmes ou séries com zumbis não são novidade, mas não necessariamente atingem sempre o grande público. Até mesmo a bem-sucedida “The walking dead”, que gerou diversas séries derivadas, teve alcance limitado. Alguns dos temas se repetem, como a noção de que, em um mundo cheio de monstros, os humanos tendem a ser a maior ameaça. É difícil não ser derivativo, mas, assim como a HBO catapultou uma série com mortos-vivos e dragões para o grande público, seu tratamento luxuoso com direção, produção e elenco de primeiro time fazem toda a diferença e são capazes de estourar bolhas e gerar interesse de novas audiências.

‘GoT’ e início inesquecível

O jogo ganhou uma continuação em 2020 (ainda nos primeiros meses da pandemia) que também foi um enorme sucesso tanto comercial quanto de crítica, e há um terceiro videogame em desenvolvimento. A série já deixa pistas para futuras temporadas. Só que, considerando a velocidade com que esses jogos são feitos, pode-se esperar um dilema parecido com o que se viu em “Game of Thrones”. Talvez “The last of us”, a série, ultrapasse o material que o inspirou. Resta saber se, sem ter jogos orientando a série, a dupla criativa de Mazin e Druckmann será capaz de manter o alto nível dessa inesquecível jornada inicial.