Crítica: 'Lições', livro de Ian McEwan, entrega protagonista em descompasso, oscilando entre o amargor e a resignação

Em seu mais recente livro, “Lições”, o escritor britânico Ian McEwan retorna ao seu campo primordial de atuação: a descrição da vida de um indivíduo ao longo de muitos anos, capturando o atravessamento entre os eventos coletivos e aqueles subjetivos. Esse procedimento se encontra em vários de seus romances anteriores — como no caso de “Sábado”, de 2005, que segue a vida do neurocirurgião Henry Perowne, ou em “Solar”, de 2010, que fala do cientista Michael Beard. Os protagonistas de McEwan compartilham uma série de características, especialmente uma sorte de inadequação diante da própria época — algo que os coloca em uma posição ambígua de amargor e resignação.

Momentos históricos

“Lições” conta a vida de Roland Baines, nascido em 1948 e criado na Líbia, por conta do trabalho do pai no Exército britânico, à época estacionado no Norte da África. De volta à Inglaterra em 1959, chega a hora de Roland partir para o internato e completar sua educação. É o ponto da narrativa no qual as “lições” do título começam a se anunciar, atingindo seu clímax no encontro com a professora de piano Miriam Cornell, com quem o jovem Baines inicia um relacionamento traumático que repercutirá ao longo de toda sua vida.

À medida que cresce, se afastando da área de influência da professora, Roland se dá conta do estrago, um trabalho de elaboração que é dividido com o narrador onisciente, que entra e sai com liberdade da mente do protagonista:

“Aos 14 anos, como poderia saber que aos 25 ela também era jovem demais? Sua inteligência, seu amor, o conhecimento de música e literatura, sua energia e encanto, quando ele era seguramente dela, tudo aquilo mascarava o desespero de Miriam”.

Essa é uma das marcas registradas da técnica romanesca de McEwan, sua capacidade de construir uma narrativa fluida e expansiva que diz respeito tanto às agruras existenciais dos protagonistas quanto às reflexões densas do narrador.

Em “Lições”, o percurso de Roland Baines ao longo do tempo e do espaço é pontuado por uma série de evocações — competentes e detalhadas — de momentos históricos: Guerra Fria, Guerra do Vietnã, a viagem à Lua, ascensão e queda da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a tragédia de Chernobyl, a queda do Muro de Berlim, o ataque às Torres Gêmeas, a pandemia de Covid-19.

Essa dimensão do romance pode ser pensada como a “face coletiva” das “lições” anunciadas no título, embora Roland apareça em vários momentos como alguém refratário ao aprendizado oferecido pelas experiências.

Começando com Miriam e continuando com Alissa, a mulher que o abandona com um bebê para criar, Roland é frequentemente colocado em uma posição de espectador diante da própria vida — mais se adaptando à vontade de outros do que afirmando suas preferências (algo reforçado pelo fato de passar a vida sem um emprego fixo).

Neutralidade impossível

É difícil dizer quanto dessa passividade do protagonista invade a dimensão onisciente do narrador, levando a perspectiva geral do romance em direção a uma “neutralidade” (impossível) diante de tantos descalabros históricos (massacres, arbitrariedades governamentais, violências contra minorias).

A percepção da dinâmica de equilíbrio entre “neutralidade” e “atividade” depende da experiência de leitura de cada um, e esse é certamente um dos pontos altos de “Lições”: o romance absorve o leitor em um jogo de revisão das próprias expectativas e posicionamentos, mostrando, através de Roland e suas relações, que todos nós somos responsáveis pela salubridade do ambiente no qual estamos inseridos, querendo ou não.

*Kelvin Falcão Klein é professor da Escola de Letras da UniRio