Crítica: 'Mali twist', amor e revolução

Robert Guédiguian localiza a história de seu novo filme no Mali, em 1962, após a libertação do colonialismo francês. Apesar da importância desse contexto específico, algumas das questões destacadas ao longo da projeção – o tratamento violento imposto às mulheres numa sociedade machista e a desigualdade evidenciada em relações de trabalho marcadas pela exploração – permanecem em pauta nos dias de hoje.

O público tende a traçar articulações com a atualidade, enquanto acompanha o romance proibido entre Samba (Stéphane Bak) e Lara (Alice Da Luz). Ele é um idealista que difunde com garra os ideais da revolução socialista pelo país. Ela se rebela contra um casamento forçado e foge. O amor não demora a florescer entre os dois, obrigados, contudo, a enfrentar um regime que segue tradições arcaicas.

Samba e Lara despontam como figuras heroicas absolutas e o vínculo sentimental que estabelecem é desenvolvido de forma pouco original. No entanto, Guédiguian, também autor do roteiro (assinado com Gilles Taurand), imprime maior gradação na construção dos coadjuvantes. Há personagens com posturas condenáveis, que, porém, não são caracterizados como vilões.

O mundo não surge dividido entre bons e maus, entre lado certo e errado. Guédiguian se afasta do maniqueísmo, realçando discordâncias e rompimentos entre aqueles que pertencem a um mesmo grupo ideológico, a exemplo da polêmica referente aos clubes onde a música eletriza os jovens. A justificativa dos que defendem o fechamento desses espaços soa arbitrária: “dançar não é uma atitude revolucionária”.

Inspirado nas fotografias de Malick Sidibé, o cineasta busca captar a luminosidade de uma juventude que, diante de todas as adversidades, luta por condições mais justas e manifesta fisicamente a alegria de viver. A ideia é clara, mas essa vibração não chega a extravasar da tela, o que diminui a possibilidade de contagiar a plateia.

Distante de Marselha, onde costuma ambientar seus filmes, e dos atores com quem trabalha com frequência, Guédiguian reuniu afinado elenco, inteiramente negro. O bom resultado alcançado nessa produção deve ser creditado mais ao conjunto de artistas do que a uma direção que não voa muito acima da correção.