Crítica Mesa do Lado: Muito bom (4 garfinhos)

O que mais me encantou no Mesa do Lado, o novo espaço do chef Claude Troisgros, no Leblon, não foi entrar pela cozinha do Chez Claude e parar dentro de uma “caixa” de 40 metros quadrados com mesas para 12 lugares.

Também não foi o ineditismo de tudo, um restaurante-show (ou vice-versa), que projeta nas paredes poemas, paisagens, fotos de família, verduras, legumes, frutas, imagens lindas embaladas por uma trilha musical de sair dançando pelo salão. É preciso autocontrole.

Não foi só por tudo isso que saí da “caixa” mexida nas profundezas. Durante duas horas, entre imagens holográficas de um Claude papeando, Camila Pitanga declamando e a Roberta Sá cantando (como se todos eles estivessem ali conosco), pude voltar a desfrutar da cozinha que fez a boa fama do chef. Não falo da servida nos CTs, no Le Blond, ou Chez Claude, mas das criações antológicas que por décadas levaram legiões de amantes da boa mesa até o Olympe, o templo da alta gastronomia francesa daqui.

Nos oito “atos” que compõem o menu degustação do Mesa, lá estão todos os clássicos do chef, que escalou até o icônico salmão com azedinha, obra do pai Pierre, responsável por colocar a Maison Troisgros, em Roanne, no mapa mundial da gastronomia. Esse ano conheci a Maison Troisgros e pude ver de perto o peso desse sobrenome e não só em Roanne, cuja estação de trem é pintada no tom salmão, uma homenagem ao prato. É na França toda.

A noite ali não custa pouco, R$ 860 (sem vinho) e tem rituais, como o de não chegar atrasado (a cortina fecha e não tem jogo) e de todos comerem ao mesmo tempo. No primeiro ato teve biscoito de polvilho com curry e o cappuccino de cogumelos (ambos largamente copiados, mas que nasceram no Olympe) e a gelatina de tomate com ostra, abacate, chèvre, couve-flor, uva, ovas e flores, prato lindo.

O nhoque trouxe vieiras, barriga de porco, palmito, cebolinha no gelo e dashi, o toque oriental; e as lâminas translúcidas de cavaquinha, lula maçaricada e caldo de vôngole coroaram o caneloni delicado. E foi então que o salmão com azedinha entrou em cena. Irretocável. Teve ainda wagyu com purê de aipim, batata-doce agridoce, blueberry, quiabo e molho bordelaise e o grand finale ficou com o mil folhas de fazer barulho: chocolate, maracujá, sorvete e folhinhas de ouro.

Fim do espetáculo e a sensação é de que nem precisava de tantos recursos e atrações high tech. A estrela maior da noite foi mesmo a cozinha de Troisgros. Ela roubou a cena.

Rua Conde Bernadotte 26, Leblon — (21) 3579-1185. Quarta a sábado, das 20h às 22h. Só com reservas.