Crítica: novo filme de Spielberg é carta de amor do diretor a seus pais e ao cinema

Nos últimos anos, diretores consagrados vêm usando lembranças de infância para entregar longas reflexivos que têm relação com suas vidas. Foi assim com “Roma” (2018), de Alfonso Cuarón, “Belfast” (2021), de Kenneth Branagh, e “Bardo, falsa crônica de algumas verdades” (2022), de Alejandro G. Iñárritu. O último a apostar no estilo é Steven Spielberg em “Os Fabelmans”, com a diferença de o longa ser uma carta de amor a seus pais e principalmente ao cinema. É seu projeto mais pessoal, em que Spielberg expõe com muita sensibilidade (além de sua paixão) os primeiros passos na arte que o consagrou como o Rei Midas de Hollywood.

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Já no início da projeção acompanhamos como começou sua relação com o ofício, remontando a ele ainda criança com os pais na primeira experiência cinematográfica — e a como ela iria se tornar o norte de sua carreira. Eles estavam numa sessão de “O maior espetáculo da Terra” (1952), de Cecil B. DeMille, e percebe-se seu fascínio com o poder de controlar a realidade, reproduzi-la e transformá-la em algo maior.

Conforme a narrativa avança, alternando momentos domésticos com suas primeiras experiências na carreira, Spielberg descobre que a câmera, além de criar fantasia, pode revelar verdades difíceis, especialmente sobre sua mãe (Michelle Wiliams, numa interpretação arrebatadora), a principal incentivadora para que ele seguisse o caminho das artes — até para preencher uma frustração dela.

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Fica claro que os momentos com pais, irmãs e amigos foram determinantes para que Spielberg se tornasse uma espécie de catalisador dos filmes voltados para a família. Independentemente se é um filme espetáculo, como “Tubarão” (1975), “E.T.” (1982) e “Jurassic Park” (1993), ou intimista, do tipo “A lista de Schindler” (1993), “Munique” (2005) e “Lincoln (2012), o diretor sempre tem como argamassa as relações humanas — um elemento vital de identificação para o público.

Da infância à adolescência, a câmera sempre foi sua companheira mais importante, nas horas de felicidade e de tristeza. Ela o ajudou a lidar com bullying, discriminação por ser judeu, seu primeiro beijo e a torná-lo querido mesmo não sendo um atleta, numa clara homenagem ao cinema de John Hughes. A câmera mostra ainda que sua maior influência foi o lendário diretor John Ford: “O segredo é fazer filmes que agradem ao público e que também permitam ao diretor revelar sua personalidade”, pensamento que Steven Spielberg sempre seguiu.

Em “Os Fabelmans”, o diretor dramatiza sua vida como um filme que combina realidade e fábula. É uma espécie de “Cinema Paradiso” (1998) de Giuseppe Tornatore, mas contido na emoção. Aclamado por ser um artesão que sempre soube usar com perfeição o cinema de entretenimento para manejar sentimentos, Spielberg desta vez entrega um longa que tem de ser saboreado nas entrelinhas.

Os Fabelmans

Diretor: Steven Spielberg. Onde: em grande circuito, a partir de quinta-feira.