Crítica: 'O Barbeiro de Sevilha' é um clássico que sabe rir de si mesmo

Segunda e última encenação do Municipal do Rio no escasso ano de 2022, “O Barbeiro de Sevilha” concebido por Julianna Santos sabe rir de si mesmo. A diretora transformou as limitações da cenografia de Giorgia Massetani — um conjunto de escadas sobre rodas, manipuladas por contrarregras — em parte da comédia, num efeito criativo. Ao mesmo tempo, extraiu teatralidade aguçada de protagonistas como Saulo Javan (Bartolo, baixo-barítono, em ótima performance vocal) e comédia física de coadjuvantes inspirados, como Rose Provenzano-Páscoa (Berta, mezzo).

No domingo, os protagonistas Vinicius Atique (Fígaro) e Lara Cavalcanti (Rosina) mereceram os aplausos. Se é a verdade que a difícil cavatina de Fígaro lhe impõe desafios na região mais alta, o barítono atravessou a ópera à altura do comentarista perspicaz com que Rossini (música) e Sterbini (texto) debocham das classes altas desde 1816. Por sua vez, a mezzo-soprano mostrou ótima voz e figura graciosa numa personagem que pode ter maior trato cômico. O maior destaque, no entanto, foi o Conde de Aníbal Mancini, que mostrou um rico registro de tenor ligeiro, muito à vontade desde “Ecco ridente in cielo” e hilário sob os disfarces de seu personagem. Suas ornamentações bem colocadas encantaram mesmo debaixo do volume excessivo da Sinfônica do Municipal do primeiro ato.

Pela primeira vez ante os riscos oferecidos por uma ópera à vera, o titular Felipe Prazeres precisará convencer boa parte de seus músicos da OSTM (com que também convive na Petrobras Sinfônica) a segurar a intensidade numa partitura bem conhecida, que transcorreu sem grandes agruras.

Fora isso, algumas escolhas de andamento, muito lentas, tiraram o brilho de certos números do Ato I, em especial na ária da “Calúnia”, em que pese a boa apresentação do baixo Murilo Neves (Don Basílio). Regido por Priscila Bonfim, o coro masculino do Municipal também se empolgou na cena dos músicos de Fiorello (Leonardo Thieze), contendo-se um pouco mais enquanto vestidos de soldados.

Se a iluminação crepuscular de Fabio Retti e Paulo Ornellas refinou um cenário simples, os figurinos de Olintho Malaquias tiveram efeitos confusos: obviamente inspirada no pôster feminista de J. Howard Miller, Berta ganhou diversão quando se tornou a “dona Florinda” do “Girafales” de Murilo Neves. Mas as escolhas para Almaviva e o “homem-aranha ao pôr do sol” de Fígaro soaram pouco convincentes.

No todo, foi um bom suspiro cênico para uma temporada em que, no improviso, o diretor artístico Eric Herrero conseguiu unir os corpos em torno de um projeto de Municipal minimamente operante. Agora, o governo eleito de Claudio Castro e a secretaria da Cultura de Danielle Barros precisam ajudar o TMRJ a ter o que até o Teatro Amazonas conquistou: o direito a uma temporada sólida, anunciada com antecedência e atraente tanto para os residentes quanto para os visitantes do Rio. Não existe democratização sem planejamento que ajude a plateia.

Cotação: Bom.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro: Praça Floriano, s/nº, Centro. Quarta e sábado, às 19h. A partir de R$ 10. Livre.