Crítica: Pura Brasa. Razoável (2 garfinhos)

A esquina é nobre e, por um bom tempo, abrigou um dos melhores restaurantes de cozinha portuguesa da cidade, o Adegão Português. O inquilino “luso” era bem mais caprichado, envidraçado e super refrigerado, que nos preservava dos decibéis nas alturas desse cruzamento da Barão da Torre. Tempos atrás, saí em campo com uma arquiteta especializada em tratamento acústico, que trazia camuflado dentro da bolsa um “decibelímetro”, uma engenhoca poderosa usada para medir o nível de barulho em ambientes. Lembro que na saudosa churrascaria Porcão, hora do pico, o ponteiro disparou: registrou um volume de ruído que se equiparava ao da cabine de helicóptero.

“Coma com um barulho desses” foi o título da matéria publicada. Essa empreitada me veio à cabeça assim que cheguei no Pura Brasa, restaurante de nome bem convidativo para quem, como nós, estávamos com o estômago aos berros. A casa, se não chega ao pódio de campeã em ruído, está no páreo, com chances, até porque as paredes do imóvel foram removidas, virou um vão, ou seja, de refrigeração insuficiente e, elementar, tratamento acústico idem. Junte a isso, as muitas TVs sintonizadas nesses tempos de Copa. E quando nossos pratos chegaram, foi frase pronta (e de Shakespeare): “muito barulho por (quase) nada”. Fraquíssimos. A tal da “pura brasa” não deu o ar da graça em momento algum nos cortes que pedimos.

Mas podia ser um golaço, já que a turma que está por trás da casa é experiente e tem história. Por isso fui ali. São donos do Elias, rede de culinária árabe com décadas de boas histórias. Sou fiel frequentadora, lamentei o fechamento da filial de Ipanema. Pois agora lamento o descuido em coisas banais, uma simples farofa de ovo de acompanhamento, que parei de primeira (R$ 27). Gordurosa, feia, farinha ruim. A fraldinha veio crua (R$ 154). Ensaiamos devolver, pedir para grelhar um pouco mais, mas o barulho e a fome nos impediram. O chorizo chegou melhor (R$ 84). Pedimos a salada da casa (R$ 29), palmito, folhas, tomate, molho adocicado demais.

Também não encarei. Na “Seleção Pura Brasa” os cortes (são cinco ao todo) chegam com acompanhamentos: o chorizo vem com arroz de brócolis, batata portuguesa, farofa e molho: R$ 179, bem servido. Aliás, o serviço é um dos trunfos, time de garçons ágeis e simpáticos, que resistem bravamente à zoeira. O melhor a fazer é não se sugestionar com o nome e DNA do espaço. Pura Brasa está mais para outro boteco de Ipanema do que uma nova opção de casa de carnes no bairro. Cair nessa é bola fora.

Rua Barão da Torre 248, Ipanema — (21) 3738-3749. Seg a qui, das 11h30 às 23h; sex a dom, das 11h30 à meia-noite