Crítica: 'Roda viva'

Patrick Pessoa
Zé Celso em cena da peça 'Roda viva'

Muitas vezes os artistas responsáveis pela produção de uma peça de teatro negligenciam o programa dado aos espectadores na entrada da sala de espetáculos. Mas o programa da nova montagem de “Roda viva”, um livrinho com mais de 50 páginas, é uma pequena joia. Além de conter informações sobre a montagem original da peça, escrita por Chico Buarque, que estreou no Rio em 17 de janeiro de 1968, seguiu para São Paulo no mesmo ano e viveu um hediondo ataque dos milicianos do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), que destruíram o teatro e espancaram os artistas, esse programa é um espaço de poesia e de pensamento.

Nele, José Celso Martinez Corrêa, mítico fundador e diretor do Teatro Oficina,em cena na Grande Sala da Cidade das Artes junto com seu elenco de 23 atores e sete músicos, evoca a montagem original, que acaba de completar 50 anos, com as seguintes palavras: “Chegou ‘Roda viva’. O texto pedia quatro pessoas no coro. Mas, quando abrimos os testes para atores cariocas, veio uma multidão, que tomou o espaço, sem saber o que era palco ou o que era plateia, se o ator poderia tocar nas outras pessoas ou não. ‘Roda viva’ foi feito por aquela multidão do coro. Era uma geração que trazia no corpo todas as revoluções. Para mim, o desbunde foi mais importante do que a luta armada, que não quebrou os padrões positivistas, não se descolonizou. A descolonização houve no momento em que a gente se ‘re-ligou’ ao nosso passado arcaico e foi descobrir o índio e o negro na gente, o fã da Rádio Nacional, o cara que gosta de música pop, o cara que começou a misturar, comer tudo, comer de tudo.”

Fiel ao espírito da original, a nova montagem radicaliza na busca por um teatro descolonizado e antropofágico. Zé Celso abre o espetáculo dizendo que “‘Roda viva’ só existe se o público atuar nela”. Pede então para os espectadores também se tornarem coreutas e cantarem junto as músicas tocadas pela excelente banda em cena, muitas das quais passaram por modificações paródicas nas letras que as atualizam. Sentado na plateia, diante da grande passarela que borra a separação entre o palco e o público, com uma grande imagem de São Jorge de um lado e outra de uma garrafa de Coca-Cola, do outro, entre o ídolo popular e o ícone do consumo, o próprio Zé Celso dá o exemplo, provocando incessantemente seus atores e espectadores.

Usando como pretexto a história da ascensão e queda de Benedito Silva, convertido no astro pop Ben Silver depois de vender sua alma ao capitalismo, a peça se estrutura como um teatro de revista, que apresenta e comenta em chave irônica todas as catástrofes ambientais e políticas do nosso tempo. Contendo uma série de imitações impagáveis de figuras políticas da atualidade, o espetáculo põe a nu as tendências totalitárias do capitalismo global e critica sem pudores a extrema-direita brasileira.

Em tempos de censura à arte e aos artistas, “Roda viva” nos faz respirar um inebriante ar de resistência e liberdade. Um verdadeiro acontecimento teatral.

Cidade das Artes: Av. das Américas 5.300, Barra — 3325-0102. Sex, às 20h. Sáb e dom, às 19h. R$ 90 (galeria) e R$ 120 (plateia e frisa). 240 minutos (com intervalo). Não recomendado para menores de 14 anos. Até 1º de dezembro.