Crítica | Sem Conexão é terror adolescente básico e corajoso

Sihan Felix
·4 minuto de leitura

Sem Conexão se encaixa na família de terror dos slashers, que envolve as ações de assassinatos em série que, geralmente, acontecem aleatoriamente. E isso pode ser, ao mesmo tempo, uma declaração de coragem e um obstáculo. Isso porque os precursores são de peso, como os clássicos O Massacre da Serra Elétrica (de Tobe Hooper, 1974) e Halloween: A Noite do Terror (de John Carpenter, 1978), além de tantos que fizeram e fazem história nesse braço do terror.

Acontece que o filme polonês consegue carregar praticamente todos os clichês construídos por muitos dos seus antecessores, mas não o faz displicentemente. Parece que cada escolha é mais uma reverência ou uma demonstração de humildade, o que, além de fazer com que o resultado seja, aparentemente, despretensioso, carregue todo o potencial intrínseco ao subgênero.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Conexão com sci-fi

Sem medo de ser o que é, o filme não demora para se estabelecer para o público. É um terror adolescente básico — que traz um subtexto sobre o quanto o vício em tecnologia, especialmente nas redes sociais, pode ser mortal (ou quase isso). Nesse meio, existe a jovem traumatizada, o nerd acima do peso e que usa óculos, a personagem sexualmente experiente... tudo exposto à mercê de algo maior, de uma floresta aparentemente organizada, pouco ou nada densa com suas árvores enfileiradas.

A desintoxicação das redes acaba demonstrando a fragilidade daqueles personagens, que passam a parecer um tanto quanto perdidos em meio a, justamente, uma floresta aberta. Aliás, essa floresta faz parte da estrutura desde o início, quando é mostrada de cima. A partir desta visão divina — que é mostrada novamente quando o ônibus com os adolescentes chega ao local — pode se perceber que o pior não é o que vem da terra, mas o que parte do alto.

<em>O ônibus e a floresta. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
O ônibus e a floresta. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Do alto, talvez, não seja uma referência somente ao sinal que chega aos smartphones e tablets dos personagens, mas uma investida bem interessante dos roteiristas Bartosz M. Kowalski, Jan Kwiecinski e Mirella Zaradkiewicz (todos do curta-metragem Zacisze, de 2017): o trabalho do trio é, também, justificar a índole e a aparência da dupla de assassinos e, para isso, inserem elementos de sci-fi.

<em>O mal que vem de cima. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
O mal que vem de cima. (Imagem: Reprodução/Netflix)
<em>As boas almas vendo a chegada do mal. (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
As boas almas vendo a chegada do mal. (Imagem: Reprodução/Netflix)

Conexão com a liberdade

Enquanto, por exemplo, Michael Myers (do citado Halloween: A Noite do Terror) é a personificação do mal, os gêmeos de Sem Conexão são dominados por uma estrutura orgânica alienígena. No micro do filme, funciona dentro do universo que é exposto — e a direção do próprio M. Kowalski é bem segura na condução dessa exposição extraterrestre. Não há exagero; o que existe é nada mais do que a justificativa para a existência daquele mal, e isso se mostra, inclusive, como um affaire com os filmes de possessão demoníaca.

Porém, no macro extrafilme, essa exploração acaba por ser uma espécie de denúncia sobre o que vem da civilização afetando a natureza e, claro, a defesa dessa natureza contra invasores. A floresta, então, aparentemente organizada, limpa e clara, recebe ajuda extraterrestre para se manter inexplorada. Não é a força do mal que age em Sem Conexão, é a forma com a qual o suposto mal adentra no corpo do bem para que este possa se defender.

<em>Possessão? (Imagem: Reprodução/Netflix)</em>
Possessão? (Imagem: Reprodução/Netflix)

O filme, ainda, não deixa de flertar com tantos outros filmes — até mesmo com referências a O Exterminado do Futuro (de James Cameron, 1984) —, o que, vez ou outra, ameniza o clima de tensão e dá algum respiro. Tudo, claro, só ressalta o grau de respeito com produções que são marcos do cinema e dão uma vida extra aos acontecimentos, por mais que alguns sejam estranhamente deslocados, como a aproximação silenciosa de um dos assassinos — e sem qualquer verossimilhança — para a morte de Aniela (Wiktoria Gasiewska).

Por outro lado, os 101 minutos podem divertir por serem, exatamente, uma demonstração de humildade dentro do subgênero. Cheio de potencial, mas sem exagerar na pretensão, esse filme polonês deixa, de maneira muito natural, as portas abertas para uma continuação. Sem medo de ser o que é e com coragem suficiente para ser válido tanto como somente mais uma história de adolescentes quanto como um filme com algo a dizer nas entrelinhas, Sem Conexão permite que o assistamos da forma que quisermos. E isso pode ser libertador.

Sem Conexão pode ser assistido por todos os assinantes da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

Fonte: Canaltech

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