Crítica: Superficial, novo disco do Coldplay investe com eficiência no romantismo e na distração para tempos terríveis

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Com “Music of the spheres”, lançado esta sexta-feira no streaming, um ponto fica bem claro: definitivamente, a banda não voltará a ser aquele belo poço de melancolia pianística e intimista do seu primeiro álbum, “Parachutes”, lançado 21 anos atrás. O compromisso assumido por esses ingleses com a dominação mundial implica que seus discos serão cada vez mais grandiosos, com artifícios pop em suficiente quantidade para poder disputar a guerra pelas métricas – e, claro, pelos grandes estádios – com artistas cada vez mais jovens que eles.

É uma tarefa dura, briga de cachorros muito ferozes, na qual o Coldplay tem tudo para se dar bem com este seu nono álbum, lançado um dia depois do anúncio de que o grupo será atração do Rock in Rio de 2022.

Músicas para a multidão saem pelo ladrão de “Music of the spheres”, disco inspirado em “Star Wars” e produzido pelo midas Max Martin (cientista sueco do pop que guiou Taylor Swift, Britney Spears e Katy Perry por seus maiores hits). É uma assumidamente romântica coleção de canções, com uma superficialidade tão eficiente que provavelmente ainda vai ser estudada pelos analistas culturais quando tentarem dar conta da nossa era.

Chega a ser comovente o otimismo desse álbum lançado em um tempo tão perturbado pela pandemia e por agitações sociais. Depois do experimental e questionador “Everyday life” (de 2019, que teve o pior resultado comercial da banda em 20 anos), “Music of the spheres” alterna, de forma exemplar, vinhetas e canções em seus 41 minutos de música.

É um disco com foco, ritmo e uma seleção de climas muito bem dosada. Uma aula de gerenciamento pop que o Maroon 5, por exemplo, deveria ter assistido antes de lançar este ano o seu desastroso álbum “Jordi”.

Em canções como “Higher power” e “Humankind”, dá para passar por cima da banalidade das letras e ir direto ao ponto: com Max Martin, o Coldplay conseguiu conjurar aquele entusiasmo épico (e muito oitentista) que só os Killers ou Bruce Springsteen levam aos discos e palcos. Balada de piano que ecoa Bryan Adams, “Let somebody go” junta a banda com a cantora Selena Gomez num momento de puro prazer culpado.

Já em “People of the pride” o Coldplay faz rock pastiche de Muse com muito iê-iê-iê, e em “Biutyful” eleva o artificialismo a um tipo de arte. E até mesmo o encontro com o k-pop do BTS rende bastante: “My universe” é arquitetura pop de excelência.

Soltas, porém, essas canções poderiam resultar num álbum vazio. Mas o Coldplay tem as suas cartas na manga para fazer a cola do disco. Daí as vinhetas instrumentais e faixas como aquela identificada pelo emoji de coração (em que a banda volta a colaborar com o jovem prodígio musical Jacob Collier), repleta de peripécias vocais. Ou então o curioso número de encerramento, “Coloratura”.

Um quase rock progressivo, com mais de 10 minutos de duração, esse parece ser o real momento de descontração em um disco milimetricamente calculado. “Nesse mundo louco, eu só quero você”, canta Chris Martin ao ininito, enquanto o grupo brinca de ser Beach Boys, Pink Floyd e U2, tudo ao mesmo tempo. É com graças como essa, de “Coloratura”, que “Music of the spheres” se realiza como deveria: um acontecimento pop que distrai a humanidade dos destinos terríveis.

Cotação: Bom

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