Crítica: 'Um herói', do iraniano Asghar Farhadi, é cinema à moda antiga

Rahim, personagem principal do filme de Asghar Farhadi, é um herói impuro. Preso por não conseguir pagar uma dívida, faz o que pode para resolver sua situação a partir do momento em que obtém uma saída temporária — e breve — da penitenciária. Conta mentiras eventuais e omite determinadas informações, mas essas falhas morais normalmente geram crises de consciência e, na maioria das vezes, ele volta atrás.

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Personagem valorizado pela excepcional interpretação de Amir Jadidi, Rahim tem evidente bom caráter. Seu objetivo não é receber alguma vantagem financeira. Luta, isto sim, para recuperar a honra e, claro, a liberdade. O constrangimento está constantemente presente nas interações, em especial entre Rahim e o filho, o menino Siavash (Saleh Karimaei).

Quase todos os personagens que atravessam a jornada de Rahim — tanto familiares, como a irmã, Malileh (Maryam Shahdaei), o cunhado, Hossein (Alireza Jahandideh), e a namorada, Farkhondeh (Sahar Goldust), quanto desconhecidos, como o motorista de táxi (Ali Ranjbari) — demonstram solidariedade e não medem esforços para ajudá-lo. Também são figuras bem-intencionadas que acabam compactuando com farsas por testemunharem o sucessivo azar de Rahim. Suas atitudes, apesar de questionáveis, talvez sejam necessárias porque, como diz o taxista, “nada é justo nesse mundo”.

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Já o posto de antagonista é representado por Bahram (Mohsen Tanabandeh). No entanto, se Rahim não bate na tela como um herói absoluto, Bahram sequer pertence ao grupo dos vilões. Ele tem argumentos para insistir em cobrar a dívida e não se sensibilizar com o empenho de Rahim —e o instante em que expõe as suas razões lembra, longinquamente, o discurso de defesa de Shylock, o polêmico personagem de “O mercador de Veneza”, peça, de William Shakespeare, distante da oposição habitual entre bons e maus.

Em todo caso, o conflito não se restringe a Rahim e Bahram. Quando as ações do protagonista ganham projeção midiática, Farhadi destaca os interesses em jogo de outros personagens, bem mais preocupados com a imagem pública do que com a verdade dos fatos. Frisa características da época de hoje, marcada pelos cancelamentos instantâneos nas redes sociais. O próprio cineasta, de certa maneira, experimentou essa repercussão imediata ao ser acusado por uma ex-aluna de plagiar uma ideia dela na concepção de “Um herói”.

O resultado, contudo, é excelente. Farhadi investe num cinema “à moda antiga” — destituído de efeitos visuais e fortemente apoiado na qualidade do roteiro, assinado pelo diretor, que imprime um ritmo fluente e extrai ótimos trabalhos dos integrantes do elenco. Esses méritos foram fundamentais na conquista do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, de onde o filme saiu ainda com o Prêmio François Chalais.

"Um herói". Diretor: Asghar Farhadi. Onde: Redes Cinemark, Espaço Itaú, Estação NET.

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