Crack em Paris se torna tema de campanha na França

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Pessoas reunidaa em Porte de la Villette após uma operação para evacuar viciados em drogas dos Jardins Eole, 24 de setembro de 2021 em Paris (AFP/Christophe ARCHAMBAULT)

O que fazer com um grupo de usuários de crack do nordeste de Paris? Essa questão, até agora impossível de resolver, esquenta os ânimos em uma França em plena pré-campanha presidencial, em detrimento dos viciados em drogas e parisienses.

Embora remonte a 2019, a tensão atingiu um novo patamar no último fim de semana com a construção de um muro para separar 50 dependentes químicos, transferidos para uma praça no nordeste de Paris, das cidades vizinhas de Pantin e Aubervilliers.

"É necessária uma resposta que não seja apenas sobre segurança, que não seja apenas deslocar o problema. É necessário um serviço de saúde: abrir um centro de desintoxicação", disse a presidente da região parisiense, Valérie Pécresse, à BFMTV nesta segunda-feira.

Com sua declaração, Pécresse, que espera ser candidata da direita nas eleições presidenciais de abril de 2022, indiretamente aponta para seus eventuais rivais: o presidente liberal Emmanuel Macron e a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo.

Os delegados do governo Macron em Paris decidiram construir o muro e transferir os viciados em drogas. E, diante de uma situação estagnada há meses, Hidalgo propôs, semanas atrás, a criação de novas salas de consumo para atender os dependentes químicos.

Este muro é "uma solução transitória necessária que responde à urgência e que não pode satisfazer ninguém", disse nesta segunda-feira o ministro da Justiça, Éric Dupond-Moretti, que prometeu respostas mais precisas "nos próximos dias".

- "Nojento" -

A construção de um muro tem "um significado simbólico, faz-nos pensar no Muro de Berlim, no de [Donald] Trump [com o México] ou no de Gaza", diz Sabrina Mahfoufi, incrédula com o muro de blocos de concreto. "É nojento".

Os moradores do nordeste de Paris, uma das áreas mais pobres da capital, esperam por uma solução há anos. Desde 2019, a principal medida adotada é a mudança dos dependentes de crack da região por conta da rejeição dos vizinhos.

Quando a chamada "colina do crack", no norte da capital, foi esvaziada em 2019, os consumidores se mudaram cerca de dois quilômetros a sudeste em direção à praça Stalingrado, onde os habitantes até jogaram projéteis pirotécnicos neles.

Para apaziguar o bairro, em maio de 2021, a polícia os expulsou para um parque próximo, mas protestos de bairro levaram a prefeitura a impedir o acesso de dependentes químicos, que se instalaram nas redondezas.

De acordo com uma carta dos delegados do governo em Paris a Hidalgo, a nova mudança para uma praça nos limites da capital se deve ao fato de que sua presença em uma área próxima às escolas era "insustentável".

Quando a segurança está entre as principais preocupações dos franceses, as possíveis soluções para os usuários de droga também não parecem convencer os parisienses.

Recentemente, Hidalgo, acusada pela oposição de degradar a segurança e a imagem de Paris, renunciou à abertura de um centro de recepção de consumidores de drogas próximo a uma escola no nordeste da cidade, diante da oposição dos moradores.

A líder da oposição municipal em Paris, a ex-ministra conservadora Rachida Dati, chegou a propor uma "internação forçada" dos usuários, medida cuja eficácia e legalidade foram questionadas por advogados e médicos consultados pela rede BFMTV.

Os novos vizinhos dos dependentes pedem uma solução de longo prazo. "Não vejo solução", diz Mahfoufi, de 46 anos, para quem isso "envolve perguntar a especialistas em vícios, não a políticos. E muito menos construir um muro".

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