Cracolândia e escuridão alteram rotina de usuários do Minhocão (SP)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O elevado presidente João Goulart, o popular Minhocão, costuma ser utilizados como área de lazer à noite e aos fins de semana, quando fecha para veículos. Os frequentadores, porém, têm enfrentado nos últimos dias um empecilho: diversos trechos estão sem iluminação.

A escuridão na via, que corta o centro de São Paulo com seus 3,4 km de extensão, tem trazido ainda mais insegurança aos moradores já preocupados com um outro problema vizinho ao elevado: a cracolândia que se instalou no quarteirão da rua Helvétia entre a alameda Barão de Campinas e a avenida São João.

A reportagem esteve no Minhocão na noite da última quinta-feira (26) e pôde notar vários trechos sem iluminação. Um dos pontos mais escuros estava entre a saída para a rua Ana Cintra e a alça de acesso da avenida São João para o elevado, justamente na altura em que os dependentes químicos se fixaram após ação policial na praça Princesa Isabel.

Na noite de sexta-feira (27), a prefeitura havia informado, em nota, que uma equipe estaria no local para detectar o problema. "Caso seja necessário e possível, fará a manutenção ainda no dia de hoje, no período noturno." No entanto, na noite de segunda (30), o problema persistia.

Nesta terça (31), a gestão municipal disse que uma equipe fez uma ronda em todo o elevado e resolveu o problema. "Em situações normais, a manutenção é realizada no prazo máximo de 24 horas. No entanto, em decorrência de fatores externos como queda de árvores, furto de cabos ou fenômenos naturais, esse prazo poderá ser estendido", diz o texto.

O apagão tem levado frequentadores a deixar de sair de casa para se exercitar. É o caso da artista plástica Cristina, 40, que preferiu não fornecer o sobrenome. Ela só usa o local enquanto há luz do sol.

"Não cogito ir desde que a cracolândia se instalou na Helvétia. Eles estão do lado da entrada por onde eu costumava subir. Só me sinto segura no Minhocão durante o dia, ou seja, sábado ou domingo", relatou.

O elevado Presidente João Goulart é fechado para automóveis de segunda a sexta-feira a partir das 20h, com pedestres e ciclistas podendo permanecer até as 22h. Aos sábados e domingos o trânsito de veículos é proibido durante todo o dia.

Quem também deixou de frequentar o elevado para a prática de atividades esportivas foi a jornalista Fernanda Martins, 33. Ela tomou a decisão há dois meses após sofrer uma tentativa de roubo ao deixar o Minhocão com duas amigas.

Conforme ela, a sensação de insegurança piorou com a migração da cracolândia para a região próxima à estação Santa Cecília do metrô. De sua varanda, ela conta já ter presenciado vários crimes.

"O que adianta morar ao lado do Minhocão, um dos símbolos de São Paulo, e não poder usar? Infelizmente, a violência nos torna reféns em nossas casas e a coisa só piora", acrescentou.

"Em relação ao furto de fios, isso é uma constante. Sinais de trânsito paralisados, iluminação pública, entre outras coisas, estão em falta. Os porteiros do prédio já foram avisados para monitorar a noite inteira para evitar o furto no prédio."

Os semáforos nos cruzamentos da avenida São João com rua Helvétia e com a rua Ana Cintra não estão operando. De acordo com a prefeitura, isso acontece porque os cabos foram furtados. "A manutenção já foi acionada. Nos últimos 30 dias, foram registrados três furtos nesses locais", afirmou a gestão Ricardo Nunes (MDB).

Fernanda ainda disse não sair mais a pé, utilizando apenas transporte por aplicativo, na tentativa de se esquivar dos roubos.

Há, no entanto, quem se arrisque na escuridão para se beneficiar das práticas esportivas ao ar livre, como o técnico de enfermagem Jefson Lobo, 34, e seu namorado, o professor Jucimar Lima, 36, que caminhavam sob os postes desligados.

"Com luz já é inseguro, eu só vim porque eu não sabia [da falta de iluminação]", disse Lobo.

"A gente está assustado, com um olho no peixe e outro no gato. Fui assaltado há cerca de um mês na República. Levaram dinheiro, celular, corrente, carteira e sapato", relatou Lobo. Segundo ele, cinco pessoas o atacaram.

Também aproveitando a noite no elevado naquele momento estava o casal Douglas Santos Silva e Mirian Vidal de Negreiros, ambos de 42 anos. Silva, que é sociólogo, destacou dois problemas naquele momento.

"Fica mais inseguro por questão de roubo e inseguro porque o trânsito de bicicleta às vezes não enxerga, porque está bem escuro."

Para ele, a pouca iluminação afasta as pessoas da área de lazer criada pela prefeitura. "Está vazio, porque está escuro. Essa parte sempre tem uma molecada jogando bola", diz, ao apontar a falta da turma do futebol naquela noite.

Morador de Santa Cecília, o cabeleireiro Alencar Souza, 64, disse à reportagem que há oscilações na luminosidade no elevado, com alguns dias com luz e, outros, sem.

"Ontem [quarta, 25] nem vim porque estava mais escuro ainda. Com a cracolândia, hoje nem dá para andar muito. São Paulo está abandonado, largada."

A reportagem permaneceu por cerca de uma hora e meia no elevado. Em alguns momentos, carros da GCM (Guarda Civil Metropolitana) passaram pelos dois sentidos da via, tanto em direção à zona oeste como ao centro.

Um dos guardas afirmou que a escuridão no elevado não era vista com frequência antes da chegada do fluxo de dependentes químicos na região.

A prefeitura disse que os agentes fazem rondas periódicas no elevado para coibir os crimes, incluindo o furto dos cabos. ​

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