As cremações não param em cemitério de Lima

Por Carlos MANDUJANO
Funcionários removem um caixão com o corpo de uma vítima de COVID-19 de um contêiner refrigerado antes de sua cremação no cemitério El Ángel, em Lima, em 6 de maio de 2020.

Enquanto milhões de peruanos passam as noites confinados em casa por causa do novo coronavírus, os funcionários do crematório no cemitério El Ángel, em Lima, não descansam, pois precisam transformar os corpos das vítimas da pandemia em cinzas.

Uma chaminé de sete metros de altura expulsa a fumaça escura dos corpos que começam a ser cremados ao entardecer na fornalha localizada na área central da capital peruana.

"As cremações levam entre uma e duas horas de acordo com o biotipo do corpo", disse à AFP Wilmer Aguilar, 44 anos, e com quatro meses de crematório, especificando que o forno funciona com "gás liquefeito de petróleo".

Em média, meia dúzia de caixões de vítimas de COVID-19 chegam diariamente ao local. Eles são colocados em um recipiente branco para refrigeração até serem levados ao forno.

O Peru é o segundo país latino-americano - atrás do Brasil -, com o maior número de infecções por coronavírus, com 58.526 casos confirmados e mais de 1.600 mortos, incluindo 94 nas últimas 24 horas. Diante da emergência, uma quarentena nacional com toque de recolher noturno entrou em vigor de 16 de março a 10 de maio.

Os mortos por COVID-19 são cremados à noite, sem cerimônias fúnebres, um serviço que pode custar às famílias o equivalente a pelo menos 480 dólares. Durante o dia, os mortos de outras causas são cremados.

Antes da pandemia, muitas famílias peruanas costumavam velar seus mortos em casa e depois se reunirem em cemitérios, acompanhados até de orquestras andinas tradicionais. Nada disso pode ser feito agora.

- "Famílias não podem ver os corpos" -

O Ministério da Saúde determinou em 22 de março que os mortos por COVID-19 devem ser cremados, exceto em cidades onde não há crematórios. Nesse caso, são enterrados.

Em 13 de abril, a ordem foi modificada, estabelecendo que, caso os crematórios estejam saturados, será optado por enterros, mas as autoridades indicam que essa situação ainda não ocorreu.

Os seis funcionários do crematório em El Ángel trabalham com trajes pretos, máscaras e luvas claras e, para não contrair o vírus, receberam treinamento de profissionais da Argentina, Uruguai e México, diz Vásquez.

"Uma pessoa falecida não te infecta com COVID porque é imediatamente revestida e colocada em uma bolsa hermética e completamente descontaminada", explica ele.

Seu trabalho antes poderia incluir manipular o corpo para vesti-lo "ou remover líquidos e gases". "Isso agora pode causar a propagação do vírus" e é proibido.

As limitações para as famílias dos mortos também são rigorosas.

"Os parentes não podem ver o rosto ou ter contato com as vítimas", diz Vásquez, lembrando a resolução do Ministério da Saúde que afirmava que "velórios estão estritamente proibidos" no caso de morte por COVID-19.

As autoridades de saúde ordenaram que o corpo fosse primeiro colocado em um saco hermeticamente fechado e desinfetado com hipoclorito de sódio ou alvejante. Só mais tarde deve ser colocado em um caixão, que em nenhuma circunstância pode ser aberto.

A cremação pode ser assistida por até dois membros da família, também com equipamentos de proteção.

A incineração deve ser feita dentro de 24 horas após a morte ser certificada e as cinzas são entregues em uma urna selada aos parentes, se solicitadas.

Os seis crematórios de Lima recebem cerca de 30 corpos por dia e estão à beira do colapso, segundo a mídia local.

Existem dois crematórios públicos, um em El Angel e outro em Chorrillos, ao sul da cidade. Ambos cobram o equivalente a cerca de 485 dólares pelo serviço.

Nos quatro crematórios particulares, os preços variam de entre 529 a 1.148 dólares.