Cremerj vai investigar médico acusado de homicídio por dormir e não atender paciente em hospital federal do Rio

O Conselho Regional de Medicina do Rio vai investigar o médico urologista Arthur Vinícius de Andrade, preso por homicídio culposo após não atender a paciente de câncer Elisângela Souza de Almeida, de 45 anos. O Cremerj abriu uma sindicância sobre a conduta do profissional que pode resultar na perda do registro de medicina dele. A entidade informou que interditou eticamente a emergência do Hospital do Andaraí em 2019, e, por isso, o setor não poderia estar em funcionamento. O Ministério não respondeu sobre a interdição. Elisângela, que era técnica de enfermagem, morreu após aguardar mais de cinco horas por atendimento no Hospital Federa do Andaraí, na Zona Norte do Rio.

Arthur Vinícius foi preso, e acabou liberado horas mais tarde após pagar fiança de R$ 10 mil. Ele vai responder por homicídio culposo. O EXTRA mostrou nesta semana que os hospitais federais do Rio passam por uma crise com 455 leitos fechados e reduziram internações em 18%.

Ao chegar ao hospital, os policiais foram tentar ouvir o médico sobre os fatos. Primeiro, o PM pediu para uma enfermeira chamá-lo, mas ela não retornou. Por volta das 5h, ao ir ao alojamento dos médicos procurar o urologista, o policial encontrou Arthur Vinícius dormindo. Ao ser questionado pelo policial, o urologista afirmou que outra médica iria atender a paciente. A profissional tomou conhecimento do caso e pediu uma tomografia para avaliar Elisângela.

Após o pedido do exame e o atendimento da médica, os agentes iriam embora. Quase embarcando na viatura, no entanto, foram chamados novamente pela família de Elisângela, pedindo auxílio porque ela voltara a passar mal e estava vomitando sangue. Ao chegar no local da tomografia, os policiais flagraram diversos profissionais prestando assistência à paciente, com exceção de Arhur Vinícius. Com a piora, os profissionais a levaram para uma outra sala, onde também estava o urologista. Após o fato, a médica e Arhur Vinícius comunicaram a morte de Elisângela para a família.

Elisângela, que deixou marido e duas filhas, estava tratando um câncer de laringe e passou mal na noite da última terça-feira. Ela foi levada para a UPA de Nilópolis mas, como a unidade não possuía profissionais capacitados para atendê-la, a família a levou para o Hospital Municipal Souza Aguiar, onde a mesma justificativa foi dada, e depois para o Hospital do Andaraí, que é federal. Em nota. a secretaria municipal de Saúde do Rio afirmou que ela foi atendida pelo Centro (emergência clínica do complexo hospitalar do Souza Aguiar) e foi prescrito medicação e exames para o quadro de emergência. No entanto, a paciente, segundo a SMS, deixou a unidade à revelia, sem aguardar a conclusão dos exames.


— Seguranças do hospital e enfermeiros foram chamá-lo e ele dizia que não viria. Ficamos aguardando por horas. Até que eu fui na assistente social e ela me disse que isso já era esperado, que a equipe daquele plantão era problemática. A própria assistente social me aconselhou a chamar a polícia. Só depois ele veio, aí levaram ela, mas era tarde e ela veio a óbito. E ele (o médico) ainda dizia que não iria acontecer nada a ele — contou Priscila Azevedo, enteada, e que acompanhou todo martírio vivido pela madrasta.

O corpo de Elisângela foi sepultado, na tarde desta sexta-feira, no cemitério municipal de Mesquita, na Baixada Fluminense.

Em nota, a direção do Hospital do Andaraí afirma que foi aberto processo administrativo interno para apuração do fato. A unidade diz que o caso será "devidamente apurado pela unidade, e que não compactua com casos de negligência ou omissão de socorro".

O médico prestou depoimento na delegacia, onde pagou fiança e foi liberado. Ele acusa a enteada de Elisângela de lesão corporal, durante uma suposta confusão após a morte da paciente. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, ele trabalha como servidor do Hospital Federal do Andaraí desde 2014. Ele também atua no Hospital Municipal Moacyr Rodrigues do Carmo, em Duque de Caxias, desde 2010.

No Hospital do Andaraí, ao longo dos anos ele atuou na emergência da unidade e também atendendo pacientes de UTI.