Cresce ameaça de milícias e facções sobre processo eleitoral de Rio e São Paulo

·4 minuto de leitura

RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Neste domingo (15) será ainda maior do que nos últimos pleitos a ameaça que milícias e facções do tráfico de drogas impõem à segurança do processo eleitoral em cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. No Rio, há décadas esses grupos criminosos interferem nas eleições, comprando votos, ameaçando moradores, garantindo que apenas candidatos de sua preferência façam campanha nos territórios que dominam, e matando adversários. Desde os anos 1990 é comum observar, especialmente na Baixada Fluminense, a entrada de milicianos nas casas legislativas e nas prefeituras da região. Em 2020, no entanto, a ameaça das milícias está ainda mais evidente, diante da expansão recente das atividades econômicas e do poderio desses grupos. O sociólogo José Cláudio Alves, que estuda o tema há mais de duas décadas, diz que esse ano é o momento de "apoteose" das milícias. Estudo inédito produzido por uma rede de pesquisadores com base em denúncias do Disque Denúncia mostrou que as milícias ultrapassaram o tráfico e já dominam 41 de 161 bairros na capital, o que representa 57,5% da superfície territorial da cidade. Pelo menos 13 políticos que se candidatariam nessas eleições já foram alvo de atentados desde o ano passado. No início do mês, o vereador Zico Bacana (Podemos) foi baleado de raspão na cabeça durante evento de campanha na zona norte do Rio. Zico é policial militar e foi citado no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio em 2008. No documento, ele foi apontado como líder da milícia que atuava em Guadalupe, na zona norte. Após dois candidatos serem mortos em Nova Iguaçu em um intervalo de 11 dias, a Polícia Civil criou uma força-tarefa para coibir os grupos paramilitares, visando reduzir interferências no pleito eleitoral. Em outubro, a corporação intensificou as operações e, em uma única ação, matou 17 suspeitos de integrarem milícias. Na última quinta-feira (12), a Polícia Federal também deflagrou uma operação para apurar ações de uma milícia em favor de três candidatas nas eleições do Rio, entre elas Suêd Haidar, que tenta a prefeitura da capital fluminense pelo PMB (Partido da Mulher Brasileira). Além dela, sua candidata a vice, Jéssica Natalina, e a candidata a vereadora Carminha Jerominho, seriam as beneficiadas. Entre os alvos da operação, estavam os irmãos José Guimarães Natalino e Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, familiares das candidatas e fundadores da Liga da Justiça, milícia que atua na zona oeste e na Baixada. Hoje os irmãos não estão mais no comando do grupo, o maior do estado, que passou a ser chefiado por Wellington da Silva Braga, o Ecko. Para tentar garantir a segurança do processo eleitoral, o TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral do Rio) trabalha junto com as polícias Civil, Militar e Federal e com o Ministério Público Eleitoral. No sábado (14), o presidente do tribunal, desembargador Cláudio Brandão de Oliveira, irá se reunir com a cúpula da segurança no estado. A Polícia Federal afirma que todo seu efetivo estará direta ou indiretamente envolvido nas eleições no domingo (15), presencialmente ou em sobreaviso, em todo o país. O objetivo é reprimir boca de urna, transporte irregular de eleitores e compra de votos. Em 2020, pela primeira vez a corporação utilizará drones para auxiliar o trabalho dos policiais. Por meio do equipamento, a polícia espera identificar suspeitos, placas de veículos, entregas de santinhos e compras de votos, com imagens de alta nitidez. A Polícia Civil também empregará quase todo seu efetivo, com cerca de 8 mil agentes. Outros 22.036 policiais militares também vão atuar na segurança eleitoral, estando presentes nos 4.892 locais de votação e fazendo a escolta das urnas eletrônicas. A influência do crime organizado na eleição também se tornou assunto neste ano da campanha em São Paulo. Em outubro, a Folha de S.Paulo mostrou que integrantes da coligação do prefeito Bruno Covas (PSDB) relataram ameaças em atos de campanha na periferia da cidade. Equipes disseram ter a atuação barrada em bairros sob o argumento de que o PSDB e aliados são considerados proibidos nessas comunidades. Esses cabos eleitorais também mencionaram a retirada de materiais de campanha que tinham sido fixados. A suspeita da coligação é de uma suposta represália pela atuação das polícias do governo do estado, hoje sob comando do tucano João Doria. Já em cidades da região metropolitana, entraram no debate eleitoral acusações de elos de candidatos com facções. Na Grande São Paulo, tenta a reeleição no município de Embu das Artes, de 275 mil habitantes, o prefeito Ney Santos, do Republicanos, que virou réu em 2016 em processo em que é acusado de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital). Em 2017, ele não compareceu à cerimônia de sua própria posse porque estava foragido. À época, o Ministério Público citou suspeita de que a facção estivesse investindo para entrar no meio político. Réu no mesmo processo e amigo do prefeito, o candidato Piter Santos, também do Republicanos, se lançou à Prefeitura de Vargem Grande Paulista, outra cidade da região metropolitana. Os dois candidatos negam todas as acusações.