Cresce medo nos corredores da morte sauditas após onda de execuções

Zeinab Abo al Jeir vive em "terror extremo": seu irmão Hussein, condenado à morte na Arábia Saudita, pode ser o próximo de uma onda de execuções que se multiplicou nas últimas semanas no reino do Golfo.

Após cinco meses sem aplicar a sentença de morte, as autoridades sauditas executaram 24 pessoas desde o início de outubro, a maioria nas últimas duas semanas, de acordo com uma contagem da AFP baseada em informações da mídia estatal.

Essas pessoas incluem 16 condenados por casos relacionados às drogas, encerrando uma moratória de quase dois anos sobre o uso da pena de morte para esses crimes.

Na terça-feira (22), a ONU considerou "profundamente lamentável" essa onda de execuções, principalmente por crimes relacionados às drogas, dizendo que era "incompatível" com os padrões internacionais.

O cidadão jordaniano Hussein Abo al Jeir está no corredor da morte desde 2015. A incerteza sobre seu destino deixa sua irmã Zeinab e toda sua família "sob pressão psicológica e em terror extremo".

"Não conseguimos contato. Sempre esperamos alguma comunicação dele. Às vezes, esperamos seis meses, ou mais", disse Zeinab à AFP, no Canadá, onde mora.

Exceto nos casos de condenados por assassinato, em que as famílias das vítimas são informadas com antecedência, as autoridades costumam anunciar as execuções depois de realizadas, explica Duaa Dhainy, pesquisadora da Organização Euro-Saudita para os Direitos Humanos (ESOHR), com sede na Alemanha.

De acordo com esta ativista dos direitos humanos, os familiares muitas vezes ficam sabendo das execuções por meio da mídia estatal, que nem sempre menciona os nomes dos presos.

As famílias "não podem nem se despedir de seus entes queridos", afirma.

- "Injusto" -

Aos 57 anos, Husein Abo al Jeir foi preso em 2014 na fronteira entre a Jordânia e a Arábia Saudita, onde trabalhava como motorista particular em Tabuk, cidade do norte do reino, conta sua irmã.

Segundo ela e a ONG Reprieve, sediada no Reino Unido, ele foi torturado por 12 dias, sem acesso a um advogado, antes de assinar um documento admitindo estar envolvido com o tráfico de drogas. A AFP não conseguiu verificar essas alegações de forma independente, e as autoridades sauditas não responderam às perguntas da AFP.

Especialistas da ONU estimam que se trata de uma detenção arbitrária sem base legal.

Na semana anterior, Hussein entrou em contato com um parente na Jordânia para anunciar que havia sido transferido para uma área da prisão de Tabuk reservada a prisioneiros em iminência de execução.

"Ele está com muito medo, está muito triste e garante que foi vítima de uma injustiça", diz sua irmã Zeinab. "Ele aguarda o momento de sua morte, de ser decapitado com um sabre, após um processo absolutamente injusto", acrescenta.

Ao todo, houve 144 execuções na Arábia Saudita este ano, de acordo com a contagem da AFP, mais do que o dobro do número de todo ano passado. Em março, em um único dia, 81 pessoas acusadas de um caso de terrorismo foram executadas.

bur/aem/rm/dbh/mis/aa/tt