Cresce mobilização de brasileiros no exterior para participar das eleições

AP Foto/Eraldo Peres

Por Juliana Causin

Milão (Itália) — Com apenas 21 anos, dois deles vivendo na Itália, Lucas Zavarise é um dos 500 mil brasileiros que moram no exterior e vão votar para presidente em 2018. Mesmo longe, Lucas tem assistido aos debates e sabatinas com os candidatos e acompanhado o noticiário brasileiro. “Apesar de estar fora, eu tenho toda a minha família, toda uma vida lá, e não descarto a possibilidade de retornar. É o que todo mundo que está fora do país deveria ter como horizonte”, afirma.

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Como ele, milhares de brasileiros atualizaram seus cadastros nos últimos anos para estarem aptos a votar em 2018. Houve um crescimento de 41,3% no número de eleitores brasileiros fora do país em relação a 2014, quando mais de 350 mil pessoas tinham o registro de domicílio eleitoral no exterior, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

Filiado ao Liga Norte (LN), partido do norte da Itália que faz parte do governo do atual primeiro-ministro Giuseppe Conte, Lucas tem se engajado também nos processos políticos para o voto no Brasil. Como voluntário em uma associação de brasileiros na província de Veneza, ele fez campanha no início do ano para que os compatriotas recadastrassem os títulos eleitorais.

Mais de 400 brasileiros fizeram a transferência de domicilio eleitoral em Veneza e uma nova seção foi aberta. A província, no norte do país, terá pela primeira vez um ponto de votação e vai atender eleitores que moram naquela região da Itália.

Essa é uma das 33 novas seções que foram abertas em 2018 pela Justiça Eleitoral do Brasil pelo mundo, com apoio das representações consulares e do Ministério das Relações Exteriores.

São cidades que não têm representação consular permanente, mas abrigam um número significativo de brasileiros. Na Itália, Veneza e Florença terão novas seções. Além delas, Colônia e Hamburgo, na Alemanha; Orlando, Salt Lake City e Frammingham, nos Estados Unidos; e Winnipeg, no Canadá, são novos pontos de votação.

Situação semelhante à de Veneza aconteceu em Salt Lake City, cidade do estado de Utah, no oeste dos Estados Unidos. O local de votação mais próximo ficava a mais de 1000 quilômetros de distância, em Los Angeles, na Califórnia. Para tentar trazer uma urna para perto dos brasileiros, Luiz Luz, 32, começou a mobilizar a comunidade pelas rede sociais.

Ele administra um grupo no Facebook com mais de 14 mil brasileiros que vivem na cidade. “Eu dizia ‘gente, vocês têm que dar um jeito de ir para Los Angeles votar ou pressionar para que eles venham para cá’”, afirma.

Em maio, antes do fim do prazo para transferência de título, um consulado itinerante foi montado na cidade. Em dois dias, foram feitos os recadastramentos dos eleitores. No dia 7 de outubro, uma equipe do Consulado de Los Angeles estará na cidade para a votação em Salt Lake City.

Luiz, que trabalha como zelador na Universidade de Utah, teve de esperar seis horas na fila para conseguir transferir o título, tamanho o movimento de brasileiros.

De acordo com o Código Eleitoral, é necessário que haja um mínimo de 30 eleitores inscritos para a abertura de uma seção eleitoral. Segundo Juliana Bandeira, chefe do cartório da Zona Eleitoral do Exterior, os critérios para que um novo ponto de votação seja aberto fora do país são a concentração de brasileiros vivendo na região, a quantidade de eleitores cadastrados aptos a votar e a possibilidade de a equipe consular mais próxima se responsabilizar e viabilizar a votação naquele determinado local.

No total, 1.424 urnas serão enviadas ao exterior, distribuídas em 125 países dos sete continentes. Os Estados Unidos é o país com mais brasileiros aptos a votar, com 160 mil pessoas cadastradas.

Na Europa, a maioria dos eleitores está concentrada em Portugal (39.118), Reino Unido (25.917), Itália (25.478) e Alemanha (25.269). Na Ásia, o Japão concentra o segundo maior número de eleitores brasileiros no mundo, com 60.708 eleitores.

Os empresários Renan Burato, 33, e Bianca Boldarini, 29, que vivem há dois anos na Itália, também transferiram seus títulos para poderem votar a partir do sistema do Título Net Exterior. Eles queriam ficar em dia com a Justiça Eleitoral e evitar os problemas decorrentes da ausência nas urnas, mas também se dizem preocupados com os rumos do país. Eles esperam, no futuro, ter um Brasil melhor do que aquele que deixaram em 2016.

Para eles, o caminho está em um novo governo com “mais pulso firme”. Apesar de não terem batido o martelo sobre o candidato que irão escolher, já têm suas preferências: ele deve apoiar Jair Bolsonaro (PSL) e ela pensa em João Amoedo (NOVO).

“Acho que a gente precisa de alguém que tenha mais pulso firme em todos os sentidos, principalmente com a corrupção. Para que as pessoas entendam que o país está sendo guiado, conduzido, e para que voltem a investir no Brasil”, diz Renan. Os dois estão otimistas com a possibilidade de mudanças: “pior do que está é muito difícil. Se o PT ganhar, aí o país afunda de vez. Mas se não, estou otimista”, opina Bianca.

Em Londres, Maria Trindade, 39, regularizou o título no exterior pela primeira vez. Ela vive há 13 anos na capital inglesa e sentiu, depois de 2014, que o voto era necessário para barrar o que chama de “onda conservadora” que tem tomado o Brasil.

Ela não votou naquele ano, mas teve medo do resultado apertado entre Aécio Neves (PSDB), que teve 48% dos votos válidos no segundo turno, e Dilma Rousseff (PT), que foi eleita com 52%. No ano seguinte, Maria regularizou seu título eleitoral.

Ela espera, com o voto, que uma candidatura de esquerda vá para o segundo turno. Maria considera a chapa de Guilherme Boulos (PSOL) a melhor opção, mas vai esperar um cenário “menos confuso” para decidir. “Se houver o risco de um segundo turno com dois candidatos da direita, eu vou votar no nome progressista com mais chance, incluindo Marina Silva (REDE)”.

Para Raul Torres Branco, vice-cônsul do Brasil em Milão e coordenador das eleições no Consulado, são vários os fatores que têm levado ao aumento do número de brasileiros votando no exterior. Entre eles, as campanhas de consulados e organizações para o recadastramento eleitoral, o cenário político instável e a adoção de processos online que facilitaram o cadastro.

Ele destaca também que, no caso da Itália, mais brasileiros têm migrado para o país, como resultado das crises política e econômica no Brasil. Consequentemente, isso tem feito com que mais pessoas mudassem de zona eleitoral. “A gente sentiu um aumento de demanda por todos os serviços consulares. Desde 2016, 2017, começou a aumentar significativamente o número de brasileiros vindo para cá”, diz.

O governo não tem o número exato de brasileiros que vivem fora do país, mas a última estimativa do Itamaraty indica ao menos três milhões. Em Portugal, país que tem sido principal destino dos brasileiros que migram para a Europa, o número de eleitores cresceu 26,8% desde 2014, de 30,8 mil para quase 40 mil. Oficialmente, 80 mil brasileiros residem no país.

Apesar do maior engajamento com a votação deste ano, ainda há entraves para a participação de quem mora no exterior e o número de abstenção costuma ser alto. Em 2014, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, a porcentagem de brasileiros que não foram às urnas no exterior chegou a 59,8%. No mesmo ano, no Brasil, o índice ficou em 19,4%.

Para Torres Branco, a distância dos pontos de votação continua sendo o grande empecilho. Mesmo com duas novas seções na Itália, em Veneza e Florença, várias regiões do país continuam distantes das urnas. “Apesar de o voto ser obrigatório no exterior, as consequências do ‘não voto’ são muito menos sentidas. Então muitos não vem votar”, explica.

No Reino Unido, por exemplo, a situação é ainda mais complicada: o único ponto de voto para os brasileiros é o Consulado do Brasil em Londres. Quem mora em Dublin, capital da Irlanda, ou em Edimburgo, na Escócia, tem que se deslocar até a capital inglesa para votar.

Segundo Juliana Bandeira, chefe do cartório do exterior no Tribunal Regional do Distrito Federal, pelo menos 35 mil títulos eleitorais cadastrados fora do país foram cancelados em 2015 pela ausência nas urnas. Nesses casos, são eleitores que não votaram, não justificaram ausência e não fizeram o recolhimento da multa durante três eleições.

Para ela, ainda faltam informações aos brasileiros sobre o recadastramento do título eleitoral. Ela destaca, no entanto, que a criação do e-Título e do Título Net Exterior foram fundamentais para aumentar o número de cadastro de brasileiros fora do país e facilitar o trâmite.

Antes, o eleitor tinha que ir mais de uma vez ao Consulado, em um processo que poderia levar meses para ser concluído – os documentos eram enviados por mala diplomática ao Cartório da Zona Eleitoral do Exterior, em Brasília, depois reenviados à equipe do Consulado. “Hoje em dia recebemos tudo preenchido, eletronicamente. O Titulo Net Exterior é uma revolução para o brasileiro que reside fora”, acredita.