Cresce o número de crianças com peso saudável tentando emagrecer, mostra estudo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um novo estudo realizado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, revelou que o número de crianças e adolescentes no Reino Unido tentando emagrecer aumentou de 1997 a 2016.

A marca, no entanto, ultrapassou a quantidade de jovens com sobrepeso e obesidade, o que mostra que parte daqueles com o peso saudável também está fazendo dieta.

Os cientistas chegaram a essa conclusão com base na resposta de 34.235 jovens de 8 a 17 anos que participaram da Pesquisa de Saúde para a Inglaterra, um levantamento que é feito anualmente no país. Perguntaram aos voluntários se eles estavam tentando emagrecer, engordar, ou se não estavam tentando alterar seu peso.

Em 1997, 21,5% dos entrevistados disseram que estavam tentando emagrecer. Vinte anos depois, esse número subiu para 26,5%, mais de um quarto da população jovem. Em um primeiro momento, é possível ver esse dado como algo positivo, já que a obesidade infantil é um problema que afeta o mundo todo. No Reino Unido, por exemplo, uma em cada três crianças está com sobrepeso ou obesidade.

No entanto, os autores acendem um alerta para outro dado encontrado. O número de participantes com o peso adequado para sua idade, mas que tentavam emagrecer, triplicou, indo de 5,3% para 13,6% em duas décadas. Se nos anos 90, a proporção era de 1 jovem em cada 20, em 2016, 1 a cada 7 crianças saudáveis estava tentando emagrecer.

Apesar de o trabalho não ter relatado a motivação desses jovens, o pediatra Mauro Fisberg, membro do Departamento Científico de Nutrologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) aponta que isso pode estar relacionado a questões de autoimagem e aceitação.

"Há a possibilidade de quererem perder peso por causa da autoestima, capacidade de avaliação da imagem corporal, bullying insistente ou pela maior disseminação de dietas na mídia", afirma o especialista.

A nutricionista Luna Azevedo, coordenadora de Pós Graduação em Nutrição Vegetariana e Vegana no ILH (Instituto Luciana Harfenist), no Rio de Janeiro, acredita que o aumento da cultura das redes sociais, que reforça cada vez mais um "ideal magro", causando insatisfação com o próprio corpo, também está por trás desse crescimento.

"A tentativa de perda de peso entre os pequenos abre uma enorme janela para o aparecimento de transtornos como anorexia, bulimia, compulsão alimentar e transtorno disfórmico corporal, mais conhecido como distúrbio de imagem", alerta.

Cenário no Brasil não é totalmente conhecido Não existem dados que avaliem a situação dos jovens brasileiros. O que se sabe, de acordo com o Atlas da Obesidade Infantil do Ministério da Saúde, é que 3 em cada 10 crianças de 5 a 9 anos estão acima do peso no país.

O Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes, feito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em parceria com o Ministério, revela que 17,1% dos adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos estão com sobrepeso e 8,4% estão obesos. Os documentos foram publicados em 2019.

Fisberg conta que, no seu dia a dia de consultório, nota que a busca por emagrecimento é maior entre as meninas adolescentes. "Nas crianças, usualmente de 6 a 10 anos, a indicação quase sempre é dos pais e é um pouco tardia", alega.

O pediatra reparou que os garotos mais velhos estão procurando mais ajuda para diminuir o peso —e ganhar músculos. "Só que a maior parte deles não tem muito interesse em mudar costumes alimentares ou em praticar atividade física. Em outras palavras, eles querem algo mais parecido com um milagre", relata o médico.

A investigação britânica mostrou um movimento similar. Ao longo dos 20 anos, as garotas sempre foram o grupo que mais relatou tentativas de perda de peso, mas houve um crescimento expressivo na ala masculina (de 15% para 20%).

Além disso, Fisberg conta que tanto os jovens, como seus pais, têm perguntado mais sobre medicação para emagrecer.

Acompanhamento médico é essencial O estudo mostra que entre as crianças com sobrepeso, a tentativa de diminuir o número na balança foi de 9% para 39,3%. Já para as obesas, o crescimento foi de 32,9% a 62,6%.

Os autores do trabalho também enxergam esse dado como preocupante porque essa mudança não foi acompanhada pelo sistema de saúde da Inglaterra, o que levaria a tentativas inadequadas de emagrecimento.

"É oportuno que elas estejam levando seu peso mais a sério. Mas isso só se faz de fato positivo, se essa for uma preocupação com a saúde, para além de uma pressão estética. Não devemos esquecer que se trata de crianças. Padrão de beleza e estética não deveria ser uma preocupação para eles", diz a nutricionista Luna Azevedo.

Já o pediatra Mauro Fisberg aponta que esse cenário só será revertido com informação e ação de programas governamentais. "Para evitar o excesso de peso e população com tendências de modificação corporal é importante que nós tenhamos recursos educativos e avaliação bastante contínua das populações de risco."

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