'Cresci vendo a Tia Nastácia na cozinha do Sítio', diz Vilma Melo, de 'Encantados'

É para fazer rir. É para celebrar. É para inspirar! A série “Encantados”, disponível no Globoplay e presença confirmada na grande de programação da TV Globo em 2023, é um tributo ao povo preto. Noventa por cento do elenco desta comédia de situação tem melanina acentuada correndo nas veias. Protagonista da obra ao lado de Luís Miranda, Vilma Melo, moradora do Rio Comprido, se orgulha de estar em cena em um produto de humor, ambientado no bairro do Encantado, que representa 56% da população brasileira, ou seja, a maioria. O melhor: a produção não é uma homenagem pontual ao Dia da Consciência Negra, que lembra amanhã a luta de Zumbi dos Palmares (1655-1695) por liberdade. Trata-se de um avanço, uma conquista, afinal uma segunda temporada já está em fase de produção.

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Aos 53 anos, a atriz, diretora teatral e professora Vilma Melo acredita em um futuro com igualdade de oportunidades.

— Eu cresci vendo a Tia Nastácia na cozinha do Sítio do Picapau Amarelo ou assistindo novelas que falavam de escravidão. A história não nos contou que o escritor Machado de Assis e a compositora Chquinha Gonzaga eram negros. Eles foram embranquecidos pela sociedade eurocêntrica que também não jogou luz sobre o escritor Lima Barreto (antigo morador de Todos os Santos) e tantos outros verdadeiros heróis. Por isso “Encantados” ocupa um espaço de representatividade tão importante. Sou otimista, estamos avançando, mas falta muito a ser feito — diz.

Neste passo em direção a um novo tempo no mercado audiovisual, Vilma interpreta Olímpia, herdeira de um mercado juntamente com o irmão, Eraldo (Luís Miranda). Curiosamente, o lugar vira quadra de escola de samba quando o horário comercial se encerra.

— A série é engraçada porque, enquanto Olímpia faz de tudo para o mercado não ir à falência, o irmão só quer saber de gastar para fazer a sua escola de samba, que desfila na Rua Intendente Magalhães, em Madureira, suba do Grupo D para o Grupo de Acesso e vá para a Marquês de Sapucaí. É interessante ver também que os funcionários do mercado viram estrelas na escola de samba, como passistas, rainhas de baterias, porta-bandeiras, mestres-salas... “Encantados” é fundamental na nossa luta por representatividade sem deixar de ser, sobretudo, uma comédia de situação deliciosa, que ainda coloca em situação de protagonismo o Encantado — observa a artista, referindo-se ao bairro que ganhou notoriedade ao ser o cenário principal da novela “Partido alto”, em 1984.

Ser uma voz ativa na luta contra o racismo faz com que Vilma reflita sobre o papel fundamental do Dia da Consciência Negra para esta causa.

—- Enquanto imperar o racismo, que é um câncer na sociedade, esta data se faz necessária para que todos se conscientizem de que as pessoas pretas existem, que são maioria, e que há uma grande dívida histórica a ser paga para este povo que teve os seus ancestrais escravizados. Somos uma maioria que tem minoria em posições de poder. Isso precisa mudar — ressalta a atriz, que faz uma participação no espetáculo “Mãe baiana”, que é apresentado neste sábado (19), às 19h, na Arena Dicró, na Penha.