Crescimento de Covid preocupa, mas é cedo para prever nova onda no país

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.03.2022 - Movimentação de pessoas com e sem máscara pela rua 25 de Março, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.03.2022 - Movimentação de pessoas com e sem máscara pela rua 25 de Março, em São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Passados pouco mais de dois anos desde que começou a pandemia, a sensação é que o pior da Covid já passou --graças, principalmente, à vacinação. A possibilidade de surgir uma nova onda, no entanto, ainda não pode ser de todo descartada.

Isso porque a situação de queda de casos e mortes pelo coronavírus no país foi quebrada na última semana, quando as médias móveis de mortes e de casos apresentaram um aumento em relação aos 14 dias anteriores --de 26%, no caso das mortes, e de 4%, para casos.

A subida, porém, é considerada reduzida e ainda sofre com os efeitos de dois feriados prolongados seguidos, a Páscoa e o de Tiradentes, quando há sabidamente menor registro de novos casos e mortes.

No entanto, alguns dados apontam para um possível repique, como o crescimento da taxa de positividade dos testes no último mês pelos principais laboratórios de diagnóstico do país --de 4% para 12%-- e o aumento de internações no estado de São Paulo.

Especialistas ouvidos pela reportagem, porém, dizem que ainda é cedo para falar em uma nova onda do coronavírus.

Alexandre Naime, infectologista da Unesp de Botucatu e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que para saber se há uma tendência de aumento ou queda é preciso ver a série histórica. "Nós tivemos um aumento de cerca de 25% [da média móvel de óbitos] na última semana, mas essas variações semanais podem se traduzir como o represamento de dados ou variações aleatórias. Por isso, é preciso ver uma tendência consolidada em pelo menos duas a três semanas para definir uma tomada de decisão", afirma.

A mesma visão é compartilhada por Julio Croda, infectologista da Fiocruz. "Os dois feriados afetaram o registro de óbitos, e o aumento da média móvel de mortes não foi acompanhado no mesmo nível pelo de casos. Por isso, acho que é preciso ter paciência para ver se é um aumento real ou artifício relacionado aos dois feriados", diz.

Para ele, mesmo a taxa de positividade maior não atingiu ainda os níveis observados durante a onda da ômicron, na segunda quinzena de dezembro de 2021 e janeiro deste ano. "Quando há uma explosão de casos, a taxa de positividade chega a 40%, 60%. Em termos de hospitalizações e casos de Srag [síndrome respiratória aguda grave], por exemplo, o próprio boletim Infogripe não apontou ainda essa subida", afirma.

Segundo dados do boletim Infogripe do Observatório Covid-19 da Fiocruz divulgados na última sexta (29), no período de 10 a 23 de abril a média móvel de casos de 14 mil representou uma queda de 36% em relação às duas semanas anteriores, enquanto a média móvel de óbitos, de cerca de cem por dia, é 43% menor do que os dados de 14 dias antes. Nenhum estado apresentou tendência de subida em nenhum dos indicadores (casos, óbitos ou internações por Srag).

Ainda de acordo com o boletim, apesar da manutenção da tendência de queda no país, a pandemia ainda não acabou e os riscos continuam presentes.

Um desses riscos, para os cientistas, é o surgimento de novas variantes. A detecção de linhagens da ômicron em outros países, como as subvariantes BA.4 e BA.5, já têm causado preocupação nas autoridades de saúde.

O virologista e pesquisador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), Anderson Brito, divulgou na última quinta (28) dados atualizados do sequenciamento de variantes no país que apontam para uma predominância da linhagem BA.2 da ômicron. Se até 1º de fevereiro essa subvariante representava 7 em cada 10 (69,3%) amostras sequenciadas, no dia 23 de abril ela passou a ser 84,3% das amostras.

De acordo com Brito, nas últimas três semanas houve um aumento na taxa de positividade dos exames analisados pelo laboratório Dasa, que servem como base para o ITpS, e como a rede pública possui um viés amostral devido à subnotificação, é provável que esse aumento seja ainda maior.

"O que estamos vendo no Brasil com base em dados da rede privada de testagem é um aumento na média de testes positivos, e sabemos que isso vem acompanhado de um aumento de casos. Isso, somado ao cenário que já observamos em outros países que enfrentam uma onda da BA.2, leva a crer que podemos estar, sim, no começo de uma nova onda", afirma.

Porém, o pesquisador ressalta que o comportamento da subvariante nos diversos países depende fundamentalmente da capacidade hospitalar e da cobertura vacinal, incluindo reforço. "No Reino Unido teve uma onda muito grande de BA.2 por conta disso [baixa cobertura de reforço]. Já na África do Sul, temos a introdução das linhagens BA.4 e BA.5 sem muito impacto nos indicadores de hospitalização", afirma.

A baixa cobertura vacinal de reforço, no entanto, juntamente com a retirada de medidas protetoras e o aumento das situações de aglomeração podem fazer com que esse aumento, ainda que pequeno, leve a um repique, segundo a infectologista e professora da Unicamp Raquel Stucchi.

"Não temos ainda como falar que o aumento é relacionado às festas nos dois feriados, mas com certeza as aglomerações, a flexibilização das máscaras e a maior circulação de vírus respiratórios se somam", diz.

A pesquisadora reforça a importância de todos aqueles com mais de 18 anos tomarem a primeira dose de reforço (ou terceira dose) e de os idosos com mais de 60 anos e imunossuprimidos tomarem a segunda dose de reforço (ou quarta dose).

"A baixa adesão à terceira e à quarta dose preocupa no sentido de essas pessoas estarem mais vulneráveis a um adoecimento grave. E todos aqueles com sintomas respiratórios devem fazer um teste para Covid e usar a máscara por, no mínimo, dez dias desde o início dos sintomas", completa.

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