Em 2021, 900 mil pessoas acessaram material neonazista no Brasil, diz antropóloga

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Adolf Hitler e Benito Mussolini durante enontro em 1938. Foto: Getty Creative
Adolf Hitler e Benito Mussolini durante enontro em 1938. Foto: Getty Creative

Em 2021, ao menos 900 mil pessoas baixaram materiais com conteúdos neonazistas disponibilizados em páginas administradas por grupos extremistas no Brasil. O número é quase o dobro dos downloads registrados entre entre 2002 e 2018.

Os números, obtidos pela antropóloga e professora da Unicamp Adriana Dias, mostram um interesse crescente, no Brasil, pelo assunto em um momento em que o acesso a materiais do tipo é facilitado pelas redes sociais e os programas de mensagem instantânea, como o Telegram.

“São pessoas que acessam, já acessaram leram ou já obtiveram material neonazista e estão compartilhando nas redes. É um escândalo”, afirma a professora em entrevista ao Yahoo Notícias.

Segundo ela, o Brasil possui hoje ao menos 530 células neonazistas, um crescimento de mais de 270% em relação a 2019.

O mapa mostra como esses grupos estão na dianteira da narrativa sobre um dos períodos mais sombrios da História. “Pelos comentários e reações que monitoramos nas redes, é impressionante que as pessoas não tenham ideia do que foi o nazismo. Acham que foi uma coisa restrita à Alemanha. Muitos não sabem, por exemplo, que o Japão participou da guerra. Que ela envolveu a Europa inteira e os países da África. Ou que foi uma guerra contra o mundo e contra o povo judeu”, afirma.

A incompreensão relacionada ao processo histórico é hoje um entrave para entender como as ideias baseadas no ódio e perseguição a minorias do século 20 se propagou e fixou nos países da América do Sul, abrigo para integrantes dos regimes que aqui puderam viver e morrer em paz –inclusive debaixo das vistas (grossas) das ditaduras da época.

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Dias notou, em suas pesquisas, um paralelo entre o avanço de grupos neonazistas e o crescimento das desigualdades em determinadas cidades do país. Os discursos de ódio são propagados tanto por quem se sente injustiçado pela situação econômica quanto pelas classes dominantes preocupadas em manter a posição na hierarquia social. O índice de desigualdade nesses locais, explica a antropóloga, se assemelha ao detectado na Europa do entreguerras, época da escalada nazi-fascista.

Por aqui, as causas que unem os extremistas são diversos. “Quem forma a Ku-Klux-Klan no Brasil não é o mesmo grupo social que forma o negacionista do Holocausto, por exemplo. Estes, em geral, são mais religiosos e têm mais estudo. A KKK aceita mulheres nos grupos, mas não dá poder a elas. Outros grupos são assumidamente misóginos”, explica.

Muitas das ideias compartilhadas nesses grupos reverberam em outros espaços. Um exemplo é o uso indiscriminado do termo “racismo reverso”, uma invenção de supremacistas brancos ligados à KKK datada dos anos 1970. Não é, portanto, um neologismo de Twitter.

Dias enviou à coluna alguns materiais obtidos em páginas neonazistas no Telegram. Um deles era uma charge com um homem branco e camisa polo dizendo “não tenho nada contra pretos, meu avô teve dois”.

Discursos antissemitas também são comuns nessas páginas. Em uma postagem, um texto atribuído a um político neonazista americano (por opção, não vamos dar nome nem visibilidade nem aos autores nem às páginas) dizia que o único deus dos judeus é o dinheiro. Nas páginas, eram compartilhados também pedidos de voto em Jair Bolsonaro, vídeos de Olavo de Carvalho e críticas ao passaporte vacinal. Chamava a atenção também o tom de superioridade usado pelos autores, que nas postagens debochavam do suposto baixo QI (quociente intelectual) da maioria dos usuários do Twitter e chamavam os defensores das leis antifascista de “brasilerios médios”.

As manifestações não ficam apenas na conversa. Em um áudio, um integrante do grupo conclamava os demais a matarem comunistas. O arsenal de guerra descoberto na casa de lideranças em operações policiais recentes mostra que ninguém ali está para brincadeira.

Dias afirma não ser coincidência que a explosão de grupos neonazistas, nos últimos três anos, tenha ocorrido no momento em que o discurso pautado pelo ódio está legitimado por políticos extremistas que tomaram ou se aproximaram do poder no Brasil. Recentemente, ela identificou no histórico de uma plataforma neonazista um banner que direcionava o usuário à página do então deputado Jair Bolsonaro.

Na base da onda neonazista à brasileira, afirma a especialista, está a ausência de conhecimento sobre o que foi a experiência nazi-fascista no século passado. Isso não tem a ver apenas com nível de instrução, mas com a falta de abordagem direta desses temas em espaços públicos e em sala de aula. Dias, que é também militante da causa de pessoas com deficiência, defende a criação de plataformas que unam grupos-alvo para compartilhamento de material que mostre a realidade das experiências históricas. Mais de seis milhões de judeus foram assassinados por ordem dos ídolos dos ativistas dessas plataformas.

“É preciso também seguir o dinheiro e identificar quem financia esses grupos”, defende.

“Desnazificar” as relações entre grupos sociais, afina, não é tarefa do passado. É desafio contínuo.

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