Cria da Maré, bailarino Ricardo Xavier se prepara para estrear espetáculo em Paris

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Ricardo Xavier nasceu e, aos 26 anos, ainda vive na Maré. Integra a companhia de Lia Rodrigues desde 2018, quando participou das apresentações de “Fúria” na França. A companhia estreará espetáculo em 1º de dezembro, em Paris, no palco principal do Chaillot, um dos mais importantes endereços da dança no mundo. Além disso, Ricardo está prestes a se formar na faculdade de Educação da UFRJ. Concluir o ensino superior é motivo de grande orgulho para os pais, que não puderam ir além do fundamental — ele serralheiro; ela, doméstica. Ter conquistado tantas coisas é algo muito improvável para a maioria dos jovens em situação semelhante à dele.

— Sou alvo de vários preconceitos: negro, morador de favela, gay, artista e candomblecista — conta.

Em maio, na Barra, um policial pôs uma arma na sua cabeça. Uma mulher tinha sido assaltada e deu a única informação que registrou: era um negro baixo. Ricardo foi liberado quando ela confirmou que não se tratava do assaltante. Andrey Silva, também bailarino da companhia de Lia e com quem Ricardo é casado há oito anos, não foi abordado. Ele é branco.

— Não tem como isso não refletir nos trabalhos que eu faço — diz.

Ricky, como é chamado pelos amigos, aproveitou as oportunidades que surgiram. Fez dança em escola pública e aos 10 anos, graças a um professor de espanhol, apresentou-se no México. Aos 14, entrou para as aulas gratuitas do Centro de Artes da Maré. Aos 16, passou para o chamado Núcleo 2, já recebendo ajuda de custo.

Aos 23, ficou um mês na França, juntamente com mais nove alunos do núcleo, e teve aulas com Maguy Marin, uma das coreógrafas mais importantes do mundo. Em seguida, recebeu o convite de Lia para ser bailarino do grupo.

— Mas eu me vejo, no futuro, num trabalho mais pedagógico, dando aulas. E já revelei pra Lia que tenho interesse em me tornar diretor do Centro de Artes da Maré.

Ele integra um coletivo de dez pessoas intitulado Papo de Laje, cuja pauta é fortemente política. Diz ter se emocionado quando viu o Centro de Artes tomado de mantimentos a serem distribuídos para os moradores.

— O Centro de Artes não é só um espaço de dança. É um lugar político também.

Ricardo se tornou referência para crianças e adolescentes da Maré.

— As pessoas acabam se agarrando no que têm. Eu vejo o que isso pode fazer para somar. Se dou um passo, tem um monte de gente atrás que vai dar um passo comigo.

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