'Criado-mudo': entenda a polêmica reacendida por Marvvila, no 'BBB 23', a respeito do racismo no termo

No "BBB 23", a cantora Marvvila resolveu comentar com Gabriel, ex-casa de vidro, que um termo usado por ele, "criado-mudo", era racista. Rapidamente a cena foi parar nas redes sociais, nesta quarta-feira, onde despertou discordâncias. O debate sobre a origem racista do termo é sempre cercado de diferentes visões e controvérsias. Em 2019, quando a loja de móveis Etna resolveu abolir o uso do termo, o trocando por "mesa de cabeceira", a discussão ganhou proporções enormes. Agora, por causa do BBB, ela volta à tona.

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Para entender a controvérsia, O GLOBO conversou com o professor da Universidade Federal do Sul da Bahia, escritor e linguista Gabriel Nascimento. Ele pontua que eram chamados de "criados-mudos", no Brasil, no auge do regime escravocrata, os "escravos domésticos", aqueles que trabalhavam dentro das casas de seus "donos".

— Esse termo remete a uma forma de "comodificação". O racismo faz com que esse escravizado seja acomodado como parte da casa. Ele não é mais um 'da família', mas um objeto móvel mesmo. — explica o professor.

Autor de “Racismo linguístico”, Nascimento estuda o tema e entende a língua através de um olhar social e histórico, e não única e exclusivamente etimológico.

— Nenhuma explicação pode ser somente etimológica. Devemos analisar, também, com o viés histórico. Quando vemos essa discussões na internet, principalmente, mas também como no manual do Ministério Público da Bahia, o estado mais negro do Brasil, temos a explicação etimológica, que exclui e rechaça a ideia de que pode haver racismo ali. De fato, o termo criado mudo não é racista por uma raiz etimológica. O inglês tem o 'dumb waiter', 'serviçal burro'. Vários lugares do mundo têm essas estruturas que acomodam o serviçal em uma estrutura racista de forma pejorativa. — explica Nascimento.

'Significados da língua são transformados no processo histórico'

O especialista concorda com os críticos e também afirma que "criado mudo não é etimologicamente racista". Ele defende, no entanto, que "os significados da língua são transformados no processo histórico". Ao ser perguntado sobre as discordâncias causadas pelo debate a respeito do termo na internet, entre telespectadores do BBB, Nascimento pontua que as divergências também existem e são fortes até mesmo entre linguistas.

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— Alguns estudiosos também rebatem esse olhar histórico. Vi em uma rede social um linguista, ex-amigo meu, confrontando isso. Essas pessoas analisam o termo dentro de uma racionalidade, de maneira linear, mas 'esquecem' que o sistema escravocrata no Brasil não foi um simples detalhe. Sem ele, com certeza a palavra significaria outra coisa. — afirma.

— A palavra 'denegrir', por exemplo, vem do latim e quer dizer 'manchar', também não tem origem racista. Entretanto, no português, ao usarem no sentido análogo a 'enegrecer', ela acaba se tornando racista. Há uma certa cumplicidade da sociedade com a naturalização do racismo na língua que precisa ser questionada. Não podemos admitir que uma visão linear sobre algum termo possa ofender algum grupo. — diz o autor, que aborda todas essas questões em um livro que ainda não foi lançado, chamado "Em defesa do Pretuguês".

Perguntado sobre como agiria caso estivesse em situação semelhante à de Marvilla, falando com alguém que não é linguista ou estudioso do tema, Nascimento lembrou de uma conversa que já teve com a irmã, segundo ele, uma mulher negra de pele mais escura que a dele.

— Minha irmã, que é uma mulher negra, já fez um uso muito equivocado e falei com ela algumas vezes sobre isso. Aqui na Bahia, quando alguém faz algo errado, temos mania de falar: 'fulano é muito escuro'. É muito comum esse uso. Falei com ela, a expliquei a respeito da questão histórica e social, e ela entendeu, porque ela mesma também é vítima desse sistema. Ela é mais escura que eu. Às vezes até a população negra acaba reproduzindo esses discursos. — concluiu o linguista.