Crianças e pets: convívio alivia o estresse na pandemia

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RIO — Com o distanciamento social imposto pela pandemia, muitos pais e mães perceberam sinais de solidão e tristeza em seus filhos, que estavam privados da companhia constante dos amigos, das brincadeiras no play, dos passeios e das festinhas de aniversário. Em muitos casos, esse foi mais um motivo para a decisão de “aumentar a família” com a chegada de um animal de estimação.

Aconteceu com a jornalista Marcela Cerqueira. Logo no início da pandemia, ela percebeu que um bichinho seria um ótimo presente para a filha, Sofia, de 11 anos.

— Lá em casa somos só eu e a Sofia, e com o isolamento ela estava ficando muito grudada comigo. Passou a pedir frequentemente para dormir no mesmo quarto, sentia falta do contato com as amigas, de brincar. E eu também estava me sentindo sozinha. Achei que a presença de um cachorro ia dar uma animada na casa, especialmente um filhote — conta Marcela, que mora em Botafogo.

Ao abrir a caixa onde estava Olivia Catarina, da raça galgo italiano, Sofia até chorou de emoção. A mascote, que completou 1 aninho em abril, já ganhou mil apelidos: Olly, Oliveta, Oliva.

— Foi muito bom ganhar a Olivia no meio da pandemia, porque eu sempre quis ter um cachorro. No primeiro dia, fui dormir bem tarde para ficar com ela — lembra Sofia.

A mãe completa:

—Não tem tempo ruim com essa raça nem monotonia. Eles são enérgicos, brincalhões, extremamente carinhosos. É impossível não ficar feliz! Dá trabalho? Sim. Mas com o home office e a escola remota, acabamos ficando mais tempo em casa e acaba sendo mais fácil treinar, educar, dar atenção. Quando ela apronta muito, quase bate um arrependimento, mas a verdade é que não imaginamos mais a vida sem Olivia Catarina.

Brincadeiras e senso de responsabilidade

Em abril de 2020, o yorkshire Zeca entrou para a família da psicóloga Roberta Balbino. Logo no início da pandemia, ela percebeu que os filhos estavam sentindo os efeitos do isolamento social, principalmente o mais velho. Olivia Balbino Troisgros, de 4 anos, e Joaquim Balbino Troisgros, de 7, passaram os primeiros 15 dias da quarentena na Serra, brincando com os cachorros dos avós maternos. Quando voltaram ao Rio, as crianças — filhos e netos, respectivamente, dos chefs Thomas e Claude Troisgros —sentiram falta da convivência com animais, principalmente porque não podiam encontrar os amiguinhos.

— O Joaquim é muito sociável e ficou um bocado triste de ficar longe dos amigos. Ele sentiu muita falta do mundinho de criança, porque entre os colegas é popular, extrovertido. Eu já havia notado que ele fica muito tímido entre os adultos e que não estava conseguindo se expressar tanto. Percebi sinais de um humor deprimido. E terapia on-line com criança é muito complicado —lembra Roberta, que mora na Gávea.

Como ela acredita que se relacionar com um pet é se relacionar com afeto, resolveu ir em busca de um animal de estimação para o casal de filhos. Pesquisou cães de pequeno porte e que se dessem bem com crianças. Eles ajudaram na escolha e esperaram o dia inteiro pela chegada do novo membro da família, mas houve um percalço no meio do caminho, conta Roberta, rindo:

— A pessoa que veio trazer mora em Guadalupe e se perdeu até chegar aqui. Ficou tarde, e as crianças acabaram dormindo. Acordaram no dia seguinte com o Zeca já em casa. São apaixonadas por ele. Brincam, dão carinho, ajudam a cuidar.

Moradora da Lagoa, a publicitária Andrea Marques já havia adotado uma gata para fazer companhia para ela e sua filha, Julia Werneck, de 10 anos. Mas foi na pandemia que percebeu de uma forma ainda mais evidente os benefícios da convivência com um animalzinho de estimação.

— Respeitamos bastante o isolamento neste período de pandemia, evitando encontros com amigos e outros familiares. Se é difícil para nós, adultos, vejo de uma forma ainda mais desafiadora para as crianças, ainda mais sendo a Julia filha única. Ter um animalzinho de estimação está sendo muito importante: faz companhia, distrai. E temos que cuidar dela, o que também acho ótimo para desenvolver o senso de responsabilidade da criança.

Julia completa:

— Adoro brincar com a Gaya! Ela me faz muita companhia e alegra o meu dia.

Criar relações de afeto é um dos pontos positivos

Especialistas em saúde mental e comportamento humano são praticamente unânimes em dizer que a convivência entre animais de estimação e crianças só traz benefícios, sendo que o maior deles pode ser desenvolver as relações de afeto, confiança e generosidade, além de diminuir o estresse e a ansiedade através da liberação de oxitocina. Coordenadora de pós-graduação de terapia cognitiva comportamental da Universidade UniAmerica, Monica Portella explica que muitas crianças humanizam a sua relação com os pets e que isso traz segurança para elas.

— Abraçar, beijar, tocar, dar e receber carinho são atividades que ajudam a liberar oxitocina. A substância ajuda na construção de relacionamentos estáveis. E em tempos de pandemia de Covid-19, as crianças estão impedidas de se tocar, se abraçar e ter contato com os avós, por exemplo —diz Monica.

A psicóloga também chama a atenção para o fato de os bichinhos ajudarem a preencher o tempo livre da criança, o que pode afastá-las das telas de celular e computador durante muito tempo. Ela acrescenta que a responsabilidade afetiva deve ser ensinada desde cedo.

—Um ponto bastante relevante é também explicar para as crianças que essa troca é muito importante e que o pet precisa de atenção e carinho — diz.

Mesmo as crianças mais novas conseguem perceber que não devem interferir quando o animal está comendo e que têm de respeitar o tempo do bicho quando ele precisa descansar, por exemplo.

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