'Crianças jogadas no chão': jornalista conta como foi a dispersão na festa do Flamengo

Lívia Neder
1 / 2
Torcedores, incluindo crianças, sentem o efeito do gás de pimenta no início da confusão

RIO - Escalada para iniciar meu plantão no jornal às 16h, optei por vir trabalhar de ônibus na tarde desse domingo. Como boa flamenguista, feliz com o resultado, vim de Niterói pela ponte e desci em frente à Prefeitura do Rio, no Centro, para completar o trajeto até O GLOBO a pé e acompanhar minha torcida no final das comemorações, mesmo que à paisana. No caminho, muitas famílias com crianças me fizeram lamentar não ter deixado meu pai trazer meu filho para a Avenida Presidente Vargas, ansioso para ver o Gabigol.

Em menos de 15 minutos, cheguei a um acesso à Rua Marquês de Pombal e fui impedida por policiais do Batalhão de Choque de passar pelo cordão de isolamento para acessar o prédio do jornal, a apenas um quarteirão de distância. Mesmo apresentando crachá, não teve jeito, já que "as ruas tinham sido isoladas para a passagem da comitiva do Flamengo".

Moradores da região pediam insistentemente para passar com crianças e também não conseguiam. Então, num estacionamento ao lado do Terreirão do Samba, começou a juntar uma aglomeração de pessoas. Resolvi esperar e já mandar para a redação um flash da movimentação da dispersão. Logo que a comitiva dos jogadores passou, aquele clima de harmonia que me encantou no primeiro momento se transformou em um cenário de horror, anunciado pelo som de bombas de efeito moral. Insatisfeitos com xingamentos de alguns torcedores que reclamavam não conseguir acessar a via para ir embora para casa, mesmo após a passagem da comitiva, policiais lançaram spray de gás de pimenta na multidão. Nesse momento, alguns homens seguiram com pedras portuguesas na mão na direção do Choque.

Apavorada e sufocada, me juntei a famílias que estavam no local esperando para chegar no seu destino e corremos em direção à Presidente Vargas para fugir da confusão e do gás. Contamos com a solidariedade de vendedores ambulantes e nos abrigamos atrás de isopores. No local, me dividia no papel de repórter, tentando registrar o que via em fotos, vídeos e flashs para a redação, e, ao mesmo tempo, meu instinto maternal e de sobrevivência falou alto, então me juntei ao grupo de pessoas que fazia um escudo humano para proteger um casal de irmãos que estava aos prantos: uma menina de 7 anos e um menino de 5, assim como meu filho. Foram 30 minutos de pânico. Vimos um guarda municipal atropelar um colega, torcedores correndo da polícia e, encurralados entre os tapumes do Terreirão e os isopores, gritávamos para os PMs — que apontavam armas para torcedores — que tinham crianças no local, mas pareciam não ouvir.

Quando percebemos que o acesso à Marquês de Pombal estava liberado, resolvemos sair correndo, eu para o jornal e as famílias para suas casas. Ao chegar na redação, respirei aliviada e agradeci minha intuição em não deixar meu filho participar da comemoração pela conquista da Libertadores. Que a vitória antecipada pelo campeonato brasileiro inspire mais paz.