Crianças que escaparam de Kharkiv encontram refúgio na Itália

Vika passava regularmente três meses no verão e um mês no inverno em Cusago (AFP/MIGUEL MEDINA) (MIGUEL MEDINA)

"Se tenho que morrer, morrerei. Mas tive uma vida feliz. Tive a oportunidade de visitar a Disneyland em Paris, Berlim e a Sicília", pensava, sob as bombas que caíam sobre Kharkiv, na Ucrânia, Vika, de 16 anos, relembrando as viagens que realizou com sua família adotiva italiana.

Quando as sirenes antiaéreas soavam, Vika se refugiava no subterrâneo de uma escola e se envolvia em um saco de dormir, tentando em vão pegar no sono.

Para passar o tempo, ensinou aos seus companheiros de desgraça o jogo de cartas Buraco, popular entre os italianos.

O pesadelo acabou na madrugada do último 7 de março, quando voltou para o seu quarto, cheia de bichinhos de pelúcia, na casa de seus "pais" italianos, em Cusago, próximo a Milão, depois de uma longa e dura viagem de trem e ônibus, graças à associação "I Bambini dell"Est" (As crianças do Leste).

Criada em 2010, a associação ajudava inicialmente as "Crianças de Chernobyl" para que pudessem passar um tempo na Itália e em outros lugares da Europa, para que respirassem ar limpo e reduzissem a quantidade de césio radioativo em seus corpos após o acidente nuclear de 1986.

A associação estendeu sucessivamente seus programas de acolhimento aos jovens dos orfanatos, como no caso de Vika.

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, no final de fevereiro, os combates têm sido intensos em Kharkiv. "Escutávamos os disparos e o som dos mísseis e víamos colunas de fumaça. Muitos edifícios foram destruídos, como nosso cinema, que ficou com todas as janelas quebradas", conta Vika, ainda impressionada.

Desde os nove anos, Viktoria Shakshyna - seu nome completo -, visita Cusago duas vezes ao ano, para passar os três meses do verão e um mês do inverno.

Essas estadias lhe permitiram sair do orfanato de Kharkiv, onde residem as crianças com pais com problemas de delinquência, álcool ou precariedade laboral.

Vika, de rosto redondo e amplo sorriso, não se imagina com um futuro na Ucrânia: "Este é meu lar, quero terminar a escola e ir para a universidade", assegura em um italiano quase perfeito, enquanto olha sua mãe adotiva, Michela Slomp, uma designer gráfica, de 47 anos.

Vika ainda não havia nascido em 1986, quando um dos quatro reatores da central nuclear de Chernobyl explodiu, no norte da Ucrânia, liberando gases e materiais radioativos, o equivalente a ao menos 200 bombas de Hiroshima em intensidade e formando uma nuvem radioativa que se estendeu por toda Europa.

"As crianças da associação não figuram entre os afetados diretamente pelo desastre, mas o certo é que no solo, nas verduras, há materiais radioativos" na Ucrânia, explica Federica Bezziccheri, presidente da "As Crianças do Leste".

Desde que a guerra explodiu, seu telefone toca dia e noite. A maioria é de famílias italianas querendo desesperadamente entrar em contato com seus filhos adotivos ou jovens ucranianos.

"Vivemos a guerra ao vivo. Quando conversamos com as crianças por vídeo, escutamos o barulho dos bombardeios. Na televisão, reconheço os lugares destruídos, o lugar onde estávamos alojados em Karkiv", conta do seu apartamento em Milão.

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