Até onde vai a perversidade de quem divulga o nome de uma criança estuprada pelo tio?

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Foto: Arquivo/EBC
Foto: Arquivo/EBC

“Quatro anos sendo estuprada até engravidar e não falar nada com ninguém. Será que ela é tão inocente assim?”

Este é o nível de perversão dos comentários a respeito do drama de uma criança de dez anos que engravidou após ser estuprada sistematicamente por um tio. A criança, grávida de cinco meses, relatou que os crimes começaram quando ela tinha seis anos.

Não bastasse o trauma, a vítima e sua família passaram a sofrer pressão de grupos religiosos que tentaram convencê-los a não interromper a gravidez, como era a vontade da criança. Segundo assistentes sociais que a acolheram, a vítima chora e grita de desespero diante da possibilidade de continuar a gestação.

Ela soube que estava grávida ao relatar dores abdominais em um hospital do interior do Espírito Santo.

Como esperado, o caso gerou comoção e um imbróglio jurídico dos mais delicados.

Em um hospital de Vitória (ES), uma equipe médica se recusou a fazer o aborto em razão da idade gestacional da criança.

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Mas, atendendo a um pedido do Ministério Público, favorável à vontade da criança (sim, criança, não jovem; e vou repetir a palavra criança como reforço, não lapso), um juiz decidiu que é legítimo e legal o aborto acima de 20 ou 22 semanas em casos de gravidez decorrente de estupro ou risco à vida. E sentenciou que a vontade da criança é soberana.

A criança foi, então, levada para outro estado para que o procedimento, amparado na lei e na sua vontade, tivesse sequência.

Contrários à decisão judicial, grupos conservadores se mobilizaram para cometer um outro crime. Em um vídeo postado em suas redes, uma conhecida extremista de direita, de quem não vamos citar o nome para evitar que ela ganhe (mais) palanque do que já tem, divulgou o primeiro nome da criança, atacou o médico que faria o procedimento e forneceu o endereço do hospital onde ela estava internada.

Não demorou a surgir a suspeita de que a informação, bem como o nome da criança e seu endereço, que deveriam estar em sigilo, teria sido vazada a ela via Ministério dos Direitos Humanos, de Damares Alves. A ativista é apoiadora fanática do governo Bolsonaro e é considerada uma “filha” pela ministra.

“O aborteiro está a caminho” disse ela, que acaba de deixar a prisão após participar de atos antidemocráticos e ameaçar ministros do STF.

Com a informação, alguns lunáticos que não tiveram os corpos destroçados por um familiar desde os seis anos foram até o local mostrar a sua solidariedade em forma de sordidez: protestar contra a equipe médica escalada para atender a vontade da vítima. Houve um bate-boca entre grupos pró e contra o aborto. O gestor-executivo da instituição foi hostilizado.

O tio estuprador segue foragido, provavelmente mais protegido da fúria dos trogloditas do que a criança estuprada por ele.

Para quem já viu um pouco de tudo no Brasil, este é um dos raros momentos em que faltam palavras para comentar qualquer coisa.

Fico, então, com o que escreveu a antropóloga Débora Diniz em seu perfil no Twitter: “A moça fanática bolsonarista das tochas saiu da cadeia. Para cometer crime ainda mais terrível: fez vídeo de horror sobre a menina de 10 anos, alegando saber o nome dela. A nomeia. Por favor, não divulguem o vídeo. É uma menina, não uma disputa ideológica”.

Em 2018, a antropóloga, figura central nas discussões no STF sobre direito ao aborto até a 12ª semana de gestação, precisou deixar o Brasil por causa das ameaças recebidas por ela e sua família.

É este fundamentalismo que quer determinar, de preferência com armas, quem é que tem direito à vida neste país. Se dependesse de seus integrantes, a da criança estuprada deveria ter acabado aos dez.

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