Crime no Recreio expõe novos negócios de bicheiros, que incluem cobrança de taxa a milicianos

Chico Otavio
·4 minuto de leitura
Nina Lima e Guilherme Pinto / Agência O GLOBO
Nina Lima e Guilherme Pinto / Agência O GLOBO

RIO — As investigações sobre a morte do bicheiro Fernando Miranda Iggnácio, assassinado na quarta-feira da semana passada, oferecem às autoridades de segurança a oportunidade de conhecer a atual configuração dos negócios da contravenção. Desde a Operação Gladiador, em 2006, já se sabia que os bicheiros estavam entrando pesado no contrabando de cigarros. Porém, crimes recentes revelam que, além do jogo proibido e do mercado ilegal do tabaco, há sinais de que os contraventores investem em negócios públicos, com integrantes flagrados em esquemas de corrupção, e na franquia à milicia de territórios para a exploração de máquinas de caça-níqueis, especialmente na Baixada de Jacarepaguá.

Com o encolhimento das apostas nas bancas de rua, agravada pelo isolamento social, e a repressão deflagrada há mais de dez anos contra os caça-níqueis do Rio, os negócios envolvendo casas noturnas e a venda de produtos falsificados, trazidos da Ásia, também estão entre as novas fontes de renda da contravenção. Em junho deste ano, Camila de Mello Mendonça Paredes, neta do bicheiro Raul Corrêa de Melo, o Raul Capitão (morto em 1997) foi presa em uma loja próxima do Camelódromo da Uruguaiana, no Centro, com cerca de 50 mil relógios falsificados.

Desde 2004, quando Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, personagem envolvido com a contravenção, gravou um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil José Dirceu, lhe faz pedido de propina para campanhas eleitorais em troca de ajuda em concorrência pública carioca, o jogo do bicho aparece envolvido com corrupção. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu este ano, quando o empresário Licínio Soares, já condenado por envolvimento com o contrabando de caça-níqueis na Operação Furacão, foi alvo da investigação sobre o QG na Propina na Prefeitura do Rio.

Lavagem de dinheiro

A contravenção também aparece nos radares da polícia fazendo parceria com organizações milicianas da Baixada de Jacarepaguá no comércio de caça-níqueis. Embora a exploração comercial das máquinas esteja proibida, elas podem ser vistas em bares e restaurantes ao longo da Gardênia Azul. Para operá-las, os milicianos são obrigados a recolher um percentual mensal aos bicheiros.

De todas as investigações já promovidas sobre a família Andrade e os seus negócios em Bangu e bairros vizinhos, a Operação Gladiador mostrou que Fernando Iggnácio e Rogério Andrade compartilhavam o mesmo sistema de lavagem de dinheiro com uso de fazendas de café na Bahia. O elo era a contadora Maria do Socorro Perpétuo Gadelha. As investigações da época revelaram que ela operava ao mesmo tempo para as organizações lideradas por Fernando Iggnácio e Rogério Andrade. Condenados, os três não foram presos até agora graças a recursos ajuizados no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Um dos responsáveis pelo inquérito explicou que Fernando e Rogério, apesar da briga sangrenta que travavam, usavam o esquema de lavagem herdado do chefão Castor de Andrade, sogro do primeiro e tio do segundo. O uso de fazendas de café no Nordeste teria começado na era de Castor, que também teve uma empresa de pesca na Bahia e chegou a ser alvo de investigação sobre a ligação de seus barcos com o tráfico de drogas.

Uma das conversas monitoradas pela Polícia entre Socorro e outro responsável pela contabilidade das quadrilhas, Carlos Henrique de Jesus, revelou que a briga entre os dois bandos poupava os operadores financeiros. “Pô bicho! Eu, Socorro, particularmente, eu respeito a ética contábil, tá entendendo? Se você trabalha para eles e eu trabalho para o de cá, isso não quer dizer que eu tenho que ser seu inimigo. Concorda comigo?”, pergunta Henrique, o Baixinho, à contadora, que respondeu “lógico”.

A Gladiador teve como objetivo desarticular uma quadrilha, formada por policiais civis e militares, que garantia proteção a Rogério e Fernando. Este investigador lembra de um detalhe curioso, que levou à captura de Fernando e à constatação de seu envolvimento em pelo menos quatro homicídios: o bicheiro, que jamais usava o próprio celular nas conversas, mas aparelhos registrados em nome de terceiros, se revelou nos grampos ao usar a expressão “tá show” .

— Quando ouvi pela primeira vez o “tá show”, desconfiei que era ele. Então, começamos a prestar atenção nas outras conversas e tivemos certeza de que aquela voz era a dele —recorda-se o investigador.

Terceirização de crimes

Só mais tarde, anos após a Gladiador, as autoridades da área de segurança constataram a terceirização da luta entre as duas quadrilhas,com a entrada em cena do “Escritório do Crime”, falange de pistoleiros profissionais revelada publicamente no curso das investigações sobre as mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. A profissionalização não apenas sofisticou os ataques, como elevou o valor dos crimes.

Uma das últimas mortes de integrantes do bando de Fernando Iggnácio, antes do ataque de quarta-feira, foi a do PM reformado Anderson Claudio da Silva, no Recreio. Este crime é visto agora como um importante caminho para chegar aos responsáveis pelo ataque ao contraventor, já que Andinho era considerado um de seus lugares-tenentes.