Crime, protestos e negligência policial mancham paradisíaca Cancún no México

Alejandro CASTRO
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Ativistas enfrenta, a polícia durante manifestação contra el assassinato de Bianca Alejandrina Lorenzana Alvarado e policiais que reprimiram com tiros de fuzil para o ar uma manifestação em Cancún
Ativistas enfrenta, a polícia durante manifestação contra el assassinato de Bianca Alejandrina Lorenzana Alvarado e policiais que reprimiram com tiros de fuzil para o ar uma manifestação em Cancún

Tiros, gritos e pessoas fugindo da polícia em uma praça pública. Não é uma zona de conflito, mas Cancún, o balneário caribenho mexicano onde a insegurança ameaça transformar sua imagem paradisíaca em um "filme de terror", segundo hoteleiros e turistas.

Na segunda-feira, centenas de manifestantes, a maioria mulheres, que protestavam contra o feminicídio em frente à prefeitura, a poucos quilômetros da luxuosa zona hoteleira, foram reprimidos pela polícia local.

Nervosos com o vandalismo no protesto, os policiais dispararam seus fuzis para o ar por cerca de três minutos e perseguiram agressivamente os manifestantes, deixando três feridos, em uma área cercada por hotéis mais baratos.

"Estamos vendo o pior filme de terror, nem falamos mais de assaltos, extorsões, já que todo dia aparecem pessoas assassinadas, cortadas, mutiladas. É inadmissível”, disse à AFP Abelardo Vara, presidente honorário da Associação de Hotéis de Cancún.

Para o empresário, a repressão policial macula ainda mais Cancún, a joia da coroa do turismo mexicano, cujos visitantes são 90% estrangeiros.

A violência ligada ao narcotráfico, a chegada do sargaço e principalmente a covid-19 fizeram despencar as taxas de ocupação dos hotéis.

O turismo representa quase 9% do PIB do México e contribuiu com mais de 24,5 bilhões de dólares em receitas em 2019. Em abril, o pico da pandemia, o setor caiu 97%.

Estamos tentando “recuperar a ocupação e esse tipo de situação com certeza afeta Cancún. (O incidente) já está em todos os meios de comunicação internacionais, é totalmente repreensível”, acrescenta Vara.

Atirar para interromper um protesto não tem precedentes em Cancún e não é comum no restante do México, onde a polícia costuma acompanhar manifestações com escudos e, em casos extremos, usa spray de pimenta.

Sua atuação foi criticada por autoridades estaduais e nacionais e custou ao chefe da polícia local seu cargo, além da suspensão do secretário de segurança de Quintana Roo, estado onde fica Cancún.

- Em alerta por feminicídios -

O protesto reflete um sério problema mexicano: a violência de gênero, com 10 mulheres mortas diariamente, segundo a ONU.

Uma dessas vítimas foi Alexis, um jovem de 20 anos de Cancún que foi dado como desaparecido na sábado. Seu corpo, desmembrado e em sacos plásticos, foi localizado no domingo.

Desde julho de 2017, Cancún foi declarado em estado de alerta para "Violência de Gênero" pelo Ministério do Interior (Interior).

Mas especialistas acusam autoridades locais de buscarem silenciar essa situação por medo de prejudicar a imagem do local, que atrai cerca de 14 milhões de visitantes por ano, segundo o Ministério do Turismo.

“Há a preocupação de que muitas informações não sejam divulgadas porque podem afetar a indústria do turismo”, mas sem que isso implique ações para prevenir tais ataques, alerta Mónica Franco, pesquisadora do Observatório de Violência Social e de Gênero de Cancún.

Os coletivos feministas locais expuseram a crise de direitos entre as mulheres e pediram ao governo estadual que assumisse a responsabilidade pela ação policial fracassada.

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