Criptomoedas viram febre na Fórmula 1 e colapso da FTX ameaça patrocínios

Além da adrenalina, o dinheiro é o principal combustível que move os campeonatos de Fórmula 1. Enquanto as empresas patrocinadoras compram espaço publicitário em uniformes, carros e até nas pistas de corrida, as equipes participantes investem quantias milionárias em peças arrojadas e novos equipamentos para tornar os carros ainda mais competitivos.

FTX: crise extrapola mundo das criptomoedas e afeta investidores de vários segmentos

Gisele Bündchen, Musk e Shaquille O’Neal: veja as celebridades que podem perder dinheiro na crise da FTX

Expoentes de um mercado que movimenta bilhões de reais por ano, as empresas de criptomoedas viraram uma verdadeira febre entre os times da competição. Sete empresas diferentes do setor atuam como patrocinadores das equipes, dentre as quais se destacam gigantes do setor como Binance e a Crypto.com — que tem um acordo de US$100 milhões com a própria Fórmula 1.

Até recentemente, eram oito empresas, mas a Mercedes anunciou a suspensão do acordo com a FTX. Sediada nas Bahamas, a FTX entrou em colapso depois que o CEO Sam Bankman-Fried confirmou na semana passada um déficit de até US$8 bilhões. A companhia estava a ponto de ser comprada pela rival chinesa Binance.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que a queda da FTX pode impactar na credibilidade das demais empresas de criptoativos e consequentemente diminuir os patrocínios do campeonato de Fórmula 1.

Por que o mercado de criptoativos tem interesse na Fórmula 1?

Segundo José Artur Ribeiro, CEO da empresa de criptomoedas Coinext, o público antenado no mercado de criptoativos é muito similar ao que acompanha o campeonato de F1, o que pode explicar o interesse das empresas do setor em investir nas equipes competidoras:

— Tudo o que envolve adrenalina faz sentido quando você está tratando de criptoativos. A própria essência do mercado, a volatilidade e a propensão ao risco, tem muito a ver com atividades como a Fórmula 1 — explicou.

O especialista avalia também que a F1 é um esporte extremamente elitizado, acompanhado por um público que, além de gostar de grandes emoções, tem dinheiro. Outro aspecto é a quantidade de pessoas que o campeonato consegue atingir, por ser globalmente conhecido.

Análise: colapso da FTX pode ser o ‘momento Lehman’ para as criptomoedas?

Armênio Neto, especialista em novos negócios, responsável pela negociação de contratos envolvendo marcas, empresas e clubes, concorda:

— A Fórmula 1 é uma plataforma global poderosa, com atributos que se encaixam no que a indústria cripto tenta transmitir: arrojo, potência, velocidade, ousadia, risco calculado. Pelo alto custo do patrocínio, só marcas com muita musculatura conseguem investir, e isso é percebido pela audiência. O segmento cripto investiu pesado no esporte, pagando valores acima do que o mercado pagava.

Impacto da queda da FTX

Com a queda da FTX, há uma expectativa de abalo na credibilidade das demais empresas do setor. Considerando que o campeonato de Fórmula 1 mergulhou de vez na febre dos criptoativos, especialistas avaliam que o episódio pode frear um pouco a onda de patrocínios:

— A queda de um player do quilate da FTX fere a credibilidade da indústria cripto, ainda mais pelo fato do mercado ser jovem, volátil e cercado de dúvidas, naturais diante do seu impacto global. Por conta da volatilidade desse mercado, cabe às equipes patrocinadas fazerem suas diligências prévias e terem cláusulas de contrato que as protejam — explicou Armênio Neto.

Crise da FTX: Sam Bankman-Fried é investigado pela SEC enquanto seu império cripto desmorona

Já para José Arthur Ribeiro, da Coinext, não há dúvidas de que a queda da FTX prejudicou muito a imagem do setor:

— Em 2019, a Atlas teve uma situação extremamente parecida com o que acontece agora, com uma insolvência clara e incapaz de honrar os seus compromissos. Eles tinham um marketing completamente agressivo. Na época, a Coinext buscava uma agência de publicidade e nos disseram que seria necessário balizar o trabalho com o segmento. Casos como esse causam uma mancha.

Neto também explica que o episódio deve impulsionar um movimento por parte das equipes de Fórmula 1 em aceitar patrocínios apenas de empresas que já passaram pelo crivo regulador:

— O Google e o Facebook bloquearam os anúncios de empresas de criptoativos não reguladas, e a mesma coisa deve acontecer com os patrocínios. Por isso, a urgência de passar pelo processo regulatório. O cuidado que as equipes podem ter é receber o patrocínio de empresas completamente reguladas — completou.

Sylmara Multini, CEO da IDG NFT discorda dos demais analistas e afirma que a FTX era um grande player, mas definitivamente não o único:

— As pessoas começam a olhar com mais detalhes, mas as demais empresas não perdem tanta credibilidade. Vejo o episódio como uma vala em uma estrada, mas definitivamente não vejo como o fim da estrada. O mercado de criptoativos está só começando. Nem arranhou a superfície ainda. Muitas aplicações, tanto das criptomoedas como NTFs, pouco foram exploradas em todas as suas possibilidades. No início, houve um entusiasmo muito grande porque as pessoas acreditavam em dinheiro rápido e fácil. É necessário ter bastante cautela.