Crise climática gera eco-ansiedade em jovens temerosos pelo futuro do planeta

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 09.08.2017 - Camada de poluição no céu da cidade de São Paulo (SP). (Foto: Robson Ventura/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, BRASIL, 09.08.2017 - Camada de poluição no céu da cidade de São Paulo (SP). (Foto: Robson Ventura/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto conversava com a reportagem por telefone, o advogado Leandro Luz, 29, confessa que está nervoso. A angústia em sua fala se refere ao tema da conversa que envolve um de seus maiores medos: a crise climática.

Ler, ouvir e falar sobre aumento da temperatura na Terra, queimadas na Amazônia, derretimento de geleiras e desastres ambientais cada vez mais frequentes deixam Luz nervoso. Quando se depara com o tema, ele sente taquicardia e suor frio nas palmas das mãos e costas.

Até pouco tempo, ele não entendia bem o que sentia, até que descobriu sofrer da chamada eco-ansiedade. O termo, que aparece em um relatório divulgado pela Associação Americana de Psicologia em 2017 e foi incluído no dicionário Oxford no final de outubro de 2021, é descrito como um medo crônico sobre a destruição ambiental acompanhado do sentimento de culpa por contribuições individuais e o impacto disso nas gerações futuras.

A primeira vez que Luz prestou atenção às questões climática foi após o tsunami em Fukushima, no Japão, quando ondas gigantes mataram 18 mil pessoas. Hoje, ele vive em Salvador, mas conta que pensa em se mudar para o interior. "Converso com a minha namorada de morar longe da costa, mas sei que esses locais também serão afetados", diz ele que relata viver em um grande dilema.

"Não sei como me comportar nos próximos 30 anos, procuro evitar o consumo desenfreado e evito produzir muito lixo plástico, mas sei que são atitudes muito pontuais que, a grosso modo, não vão mudar a realidade".

O advogado, porém, também critica o governo sobre sua postura diante da crise climática. Para ele, por exemplo, a prioridade de autoridades deveria estar na mudança da matriz energética brasileira. "Mas, estamos no caminho oposto, voltamos a discutir a implementação de usinas de carvão para produção de energia no Brasil, algo que é totalmente rudimentar".

Assim como Leandro Luz, a aluna do ensino médio Mariana dos Santos, 16, se recorda de chorar copiosamente quando criança após assistir a reportagens sobre mudança climática. Hoje, ela diz que apesar de não desabar mais diante das notícias, a ansiedade vira e mexe ainda a abala.

Ela costuma temer, por exemplo, o aumento do nível da água dos oceanos. "Penso nas cidades que podem desaparecer e as consequências que isso pode acarretar. Isso se torna uma bola de neve. Sei que não dá para fazer muito e é isso que desencadeia o desespero", diz.

A estudante de gestão ambiental Maria Antônia Luna, 20, também descobriu recentemente que o aperto no peito, sensação de falta de ar ao ler notícias sobre o incêndio que atingiu o Pantanal em 2020 se referem à eco-ansiedade.

"A sensação é de uma angústia de que nada vai melhorar", define ela que agora busca uma terapia que a ajude a enfrentar aflições relacionadas às crises climáticas, tópico frequente em sua graduação.

Marina, Maria e Leandro não são casos isolados. Um estudo publicado no The Lancet Planetary Health, no início de setembro, analisou a ansiedade climática entre jovens de dez países, como Brasil, Estados Unidos, Índia, Filipinas, Finlândia e França.

O artigo, em preprint (não revisado por pares), ouviu 10 mil jovens de 16 a 25 anos e apontou que a maioria sente com medo, raiva, tristeza, desespero, culpa e vergonha diante de problemas ecológicos.

Ao todo, 58% consideram que seus governos traíram os jovens e as gerações futuras. Apenas franceses e finlandeses não concordam majoritariamente com a afirmação. Quando os números são destrinchados por países, a sensação de traição tanto por parte dos adultos quanto dos governantes é mais latente entre os brasileiros (77%), seguido por indianos (66%).

Para Alexandre Araújo Costa, físico e pesquisador de crises climáticas há 20 anos, a pesquisa aponta também para um olhar otimista, ou seja, o potencial de conscientização maior entre os mais jovens.

"Eles sentem que o Brasil não faz nada para evitar a atual situação e isso pode ser bom para mobilizar", diz Costa. Segundo ele, não é possível hoje evitar que o assunto seja debatido. "A consequência relacionada à saúde mental é preocupante, mas não podemos manter nossas crianças e jovens em uma redoma dizendo que está tudo bem, quando corremos o risco de perder a Amazônia", afirma.

O professor ainda analisa que a situação não deve ser vista apenas como um sofrimento individual, já que todos vão acabar impactados de uma forma com a crise ambiental. "É preciso que a gente troque esse governo que dá de ombros para o problema ou que é sequestrado por interesses econômicos que só visam lucro de curto prazo", diz.

A bióloga Beatriz Ramos segue a linha de Costa. Para ela, o perigo da eco-ansiedade é a vontade de não saber o que está acontecendo. "Ao nos afastarmos dos fatos, podemos entrar em um processo de negação.'"

"É preciso falar o que vai acontecer, como podemos prevenir, quais são as possíveis soluções e explicar que vai acontecer um aumento de eventos extremos, mas existem formas de nos adaptarmos e ainda temos tempo de mitigar isso. Não dá para agir só com otimismo ou só com a sensação apocalíptica", diz.

Depois de uma depressão profunda disparada pelo sentimento de degradação ambiental, a ecóloga Ana Lúcia Tourinho entendeu que a única forma de me sentir melhor seria se seguisse atuando na linha de frente. Esse foi um dos motivos que a levou a trabalhar em Sinop (MT), região que sofreu com queimadas e densas névoas de fumaça em 2020.

"Eu respiro fumaça de incêndio. É triste, mas é uma forma que encontrei de não me esconder. A sensação de impotência diminui, sinto que não estou parada assistindo à destruição", diz ela que relata que nos piores momentos do ano passado presenciou cenas desesperadoras de animais agonizando vivos.

A angústia diante às crises climáticas parece cada vez mais latente e atinge, principalmente, os mais jovens. Em Portugal, de acordo com uma reportagem publicada pela Agência Lusa, o termo traz um novo desafio aos psicólogos. Já no Brasil, o uso do termo ainda é emergente, apontam especialistas.

O antropólogo Rodrigo Toniol, por exemplo, não acredita que esse diagnóstico vá emplacar. "Não acho que a gente vai chegar num consultório e será um diagnóstico à mão de todos os psiquiatras, mas eu acho que esse é um sintoma relevante que aponta para problemas ligados à falta de um pacto social", diz ele.

Para o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker diz que os efeitos da ansiedade causada pelo clima são colaterais. Dunker reflete que, na verdade, nota no consultório o crescente sentimento de injustiça quanto às situações que demandariam ações que não são sendo tomadas, como desigualdade social, racismo, homofobia e desigualdade de gênero.

"No bojo desta modificação da nossa indignação aparece a situação em que passamos a enxergar o planeta como alguém e não como algo", analisa.

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