Crise com demissão de general e ameaça de levante em 1977 foi marco da ditadura militar

FELIPE BÄCHTOLD
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lembrada como uma crise institucional de dimensão comparável à atual, do governo Jair Bolsonaro, a demissão do então ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977 pelo presidente Ernesto Geisel foi um marco dos anos finais da ditadura militar. O choque entre os dois generais naquele ano opunha as duas principais alas do regime: a política da abertura "lenta, gradual e segura", anunciada por Geisel em 1974, e o grupo linha-dura, representado por Frota, que rejeitava a possibilidade de entregar o poder a civis. Frota ocupava um posto de relevância extrema em um governo tocado por militares. Na época, não havia Ministério da Defesa, e o comandante de cada Força tinha status de ministro -situação que perdurou até 1999. O ministro do Exército se movimentava para se candidatar à Presidência da República em eleição indireta, prevista para 1979, e divergia de Geisel, por exemplo, em relação ao afastamento do comandante do 2º Exército, em 1976, após a morte do operário Manoel Fiel Filho nas dependências de uma unidade. Geisel tomou a iniciativa de demiti-lo em 12 de outubro de 1977. Cercou-se de precauções para evitar um levante de oficiais alinhados ao ministro, como avisar com antecedência os militares fiéis e a escolha da data do feriado, que tornaria mais difícil uma resposta. Segundo conta o jornalista Elio Gaspari no livro "A Ditadura Envergonhada", em uma reunião de cinco minutos, o presidente disse ao ministro que não estava sendo cumprido o que haviam combinado e afirmou que precisava que ele se demitisse. Frota se recusou a sair, e Geisel respondeu: "O cargo de ministro é meu, e não deposito mais em você a confiança necessária para mantê-lo. Se você não vai pedir demissão, vou exonerá-lo". O ministro ainda tentou, em reação, convocar uma reunião do alto comando contra o presidente. Não conseguiu. Deixou o posto lançando um manuscrito de oito páginas em que falava na "deformação e no abandono dos objetivos da Revolução". Criticou o "capitalismo de Estado" do governo e mencionou a ameaça das "pesadas algemas do totalitarismo marxista" e a complacência com a "infiltração comunista" na imprensa e no próprio governo. Na sequência, Geisel promoveu uma reformulação de postos militares, com dezenas de trocas em cargos de comando. Ainda assim, os comandantes da Marinha e da Aeronáutica permaneceram em suas funções, diferentemente do ocorrido agora no governo Bolsonaro. Geisel entregou o poder em 15 de março de 1979 a seu escolhido, João Baptista Figueiredo, o último dos generais do regime, que se encerrou em 1985. O ex-ministro do Exército escreveu posteriormente o livro "Ideais Traídos" com a sua versão dos acontecimentos. Geisel é apontado no relato como traidor e chefe de um "governo de centro-esquerda", pelo reconhecimento da comunista República Popular da China, e por supostamente desmantelar a segurança interna. Foi aquela a Presidência responsável pela revogação do AI-5 (Ato Institucional nº5), o mais duro dos instrumentos da ditadura. Frota também afirmou no livro que, como ministro do Exército, devia atuar como representante da Força junto ao presidente, e não como "um delegado deste na instituição". O ex-ministro se disse traído pelos demais generais, a quem entendia que deviam obediência e ele, e não ao presidente. Disse que as "revoluções" -terminologia que militares usam para se referir à ditadura- "não têm prazos e somente se exaurem com a integral concretização de seus objetivos". Frota morreu em 1996, aos 86 anos, pouco mais de um mês após a morte de Geisel.