'Crise de confiança' freia crescimento na América Latina, alerta BID

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Uma voluntária serve comida em um refeitório beneficente em Trujillo, La Libertad, Peru, 22 de setembro de 2021 (AFP/Gian Masko)

Uma "crise de confiança" em governos, empresas, sindicatos e entre as pessoas entre si freia o crescimento econômico na América Latina e no Caribe, alertou nesta quinta-feira (13) o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), instando os países a resolverem o que considera seu "problema mais urgente".

Só uma em cada dez pessoas acredita que os demais vão agir de forma adequada na América Latina e no Caribe, a região do mundo com maior nível de desconfiança, segundo um relatório do BID, que defende a promoção da transparência e o fortalecimento das instituições como prioridade da agenda política.

"Colocar a confiança no centro da tomada de decisões governamentais reavivaria significativamente o desenvolvimento na região", disse o presidente do BID, Mauricio Claver-Carone, ao apresentar o informe.

O que significa uma maior confiança? Mais compromisso dos políticos em cumprir suas promessas, menos burocracia e regulações arbitrárias, e mais cidadãos comprometidos em exigir seus direitos, como que seus governantes prestem contas, e cumprir com seus deveres, como pagar impostos.

"Aumentar a confiança é uma grande oportunidade para os países: investir na confiança compensa", assegurou à AFP Carlos Scartascini, líder do Grupo de Economia Comportamental do BID e um dos autores do estudo.

"Uma confiança maior vai acelerar o crescimento, que é um dos grandes temas pendentes da região. Ao mesmo tempo, permitirá enfrentar melhor as reformas urgentes que a região precisa saindo da pandemia", acrescentou.

A América Latina e o Caribe, a região mais desigual do planeta, tem sido fortemente castigada pela covid-19: representa apenas 8% da população mundial, mas concentra cerca de 30% das mortes por covid-19 do mundo.

E em 2020, quando se declarou a emergência sanitária global, o PIB regional encolheu 7%, mais de três pontos percentuais acima da média mundial. O FMI disse que pode levar "muitos anos" para reverter os efeitos negativos da pandemia.

- Educação, "vital" para a cidadania -

Scartascini alertou que reverter uma tendência à baixa confiança interpessoal e institucional "não é algo que ocorra como em um passe de mágica", e apontou a educação como "vital" para construir cidadania.

"Quanto mais as pessoas compreenderem o mundo que as cerca, maior será sua confiança nos demais", destacou.

Segundo o relatório, as pessoas com maior nível educacional são capazes de discernir se foram vítimas de condutas alheias oportunistas, inclusive por parte de governos ou empresas.

O informe destaca que menores níveis de confiança significam democracias mais frágeis e receitas fiscais reduzidas, maior informalidade no mercado de trabalho e políticas de segurança pública mais duras, porém menos eficazes.

Além disso, menos confiança implica em menos disposição da população a participar dos esforços coletivos, como fazer sacrifícios relacionados com as mudanças climáticas.

O percentual de pessoas que acredita que pode confiar nos demais na América Latina e no Caribe piorou nas últimas décadas, passando de 22% em 1981-85 para 11% em 2016-20, indica o informe.

Mas há diferenças entre os países. O percentual da população que confia na maioria das pessoas é de 21,08% no Uruguai, mas de apenas 4,69% no Brasil. A situação também varia em México (18,37%), Chile (17,07%) e Argentina (16,15%) em relação a Peru (10,80%), Nicarágua (9,12%) e Venezuela (5,21%).

- Herança colonial -

A desconfiança tem em parte uma explicação histórica. Segundo estudos citados pelo BID, quando as pessoas se veem forçadas a se voltarem umas contra as outras, a confiança diminui e seus efeitos se perpetuam no tempo.

Isso pode ser visto no Peru, por exemplo. Lá, na época colonial, as comunidades deviam selecionar quem trabalharia nas minas de prata, das quais nunca voltariam.

"Gerações depois, nestas mesmas comunidades se observa uma menor provisão de bens públicos locais, algo sintomático de uma cidadania frágil", diz o estudo.

Por outro lado, Scartascini disse que a confiança é menor em sociedades menos capazes de sancionar o comportamento não confiável mesmo quanto todos sejam cientes dele.

"Sociedades organizadas podem fazer cumprir o contrato social e, com isso, reduzir as oportunidades para que poucos se beneficiem às custas de muitos", afirmou.

Para promover a cidadania, o BID pede a eliminação das assimetrias de informação e poder. E diz que os políticos têm "um papel importante a cumprir".

"Quando os políticos manifestam um comportamento confiável e cidadão, exercem forte influência no restante do setor público e da sociedade em geral", destaca o informe.

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