Crise continua no aeroporto de Cabul, e 17 afegãos se ferem em confusão

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Símbolo da humilhação imposta ao Ocidente pela vitória do Taleban após 20 anos de ocupação liderada pelos EUA no Afeganistão, o aeroporto de Cabul voltou a viver momentos de tensão nesta quarta (18).

Forças da Otan (aliança militar ocidental) tentaram dispersar civis sem passaporte ou visto que tentavam entrar no aeroporto Hamid Karzai. O resultado foi uma correria que deixou ao menos 17 feridos.

O episódio é o mais recente na malfadada operação de evacuação de ocidentais da capital do Afeganistão tomada pelos extremistas após fulminante campanha militar de duas semanas no domingo (15).

Ao longo do fim de semana, o país viu afegãos correrem com passagens para os últimos voos comerciais a sair da cidade. "Estava um caos, ninguém sabia quem estava dando ordens", contou à reportagem Mohammad Wadhat, funcionário do governo que escapou para Istambul, na Turquia, na manhã do domingo, quando as tropas talebans já batiam nas periferias cabulitas.

No domingo e na segunda, a situação recrudesceu, com cerca de 2.000 afegãos vagando na pista do aeroporto. Na manhã seguinte à queda de Cabul, as cenas que horrorizaram o mundo: dezenas de civis correndo ao lado de aviões militares americanos na pista de decolagem.

Ao menos dois deles morreram ao se agarrar à fuselagem de um mastodôntico cargueiro C-17 dos EUA, caindo após ele decolar. Uma investigação aponta que ao menos um deles foi esmagado pelo fechamento das portas do trem de pouso.

O episódio se tornou um ícone da saída apressada do Afeganistão, antecipada pelo presidente americano, Joe Biden, para 31 de agosto, 12 dias antes do prazo anunciado em abril que já dera a senha para a ofensiva do Taleban.

O grupo havia sido derrubado em 2001 na invasão americana, ocorrida como punição pelo abrigo dado aos perpetradores dos ataques do 11 de Setembro, a rede Al Qaeda. Em entrevista à rede ABC, Biden, disse que seria impossível retirar as tropas americanas "sem caos".​

O problema é que, apesar de a inteligência americana alertar para o rápido avanço taleban na semana passada, quando os insurgentes já estavam a menos de 100 km da capital, o governo insistiu que Cabul resistiria por algo entre 30 e 90 dias.

A Otan, que assumiu o aeroporto, afirmou nesta quarta que já conseguiu retirar 3.200 diplomatas e funcionários de embaixadas nas últimas 24 horas, mas não explicitou quantos afegãos —só no domingo, 640 se amontoaram no porão de carga desenhado para 140 passageiros eventuais de um C-17 rumo ao Qatar.

Na madrugada desta quarta, um avião fretado pelo governo alemão chegou a Frankfurt com evacuados. O governo fala em 189 alemães, 202 afegãos e 59 outros europeus retirados até aqui. Cerca de 600 militares alemães estão na operação, assim como franceses —grandes cargueiros A-400M dos dois países estão operando em Cabul.

Em um movimento de acomodação com o Taleban, as forças ocidentais também negaram os diversos relatos de que militantes do grupo bateram em civis que deixavam o aeroporto frustrados, na volta para suas casas.

A reportagem também ouviu essa descrição, negada oficialmente na primeira entrevista coletiva do Taleban na terça-feira (17), de dois afegãos ainda em Cabul.

O fluxo de voos militares parece normalizado para proceder a evacuação. Os EUA destacaram 6.000 fuzileiros navais para a missão, cerca de 3.500 dos quais estão no aeroporto, onde estão funcionando a embaixada americana e representações de outros países ocidentais. Militares britânicos também estão lá.

O Taleban, em campanha para dizer ao mundo que agora é moderado, não interferiu no processo de forma decisiva —as únicas acusações são as negadas acerca de violência com os que tentaram fugir. Houve tiros dados para o ar por soldados do grupo para tentar conter a multidão também nesta quarta, mas sem feridos registrados.

Seja como for, o momento Saigon do presidente Biden, na analogia com a evacuação da capital sul-vietnamita quando a derrota para o norte comunista se consumou em 1975, parece destinado a seguir cobrando preço político do democrata.

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