Crise da COVID-19 se aprofunda na América Latina e Europa sai do confinamento

Por Ariela Navarro e Toni CERDÀ em Bruxelas e escritórios da AFP no mundo
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Funcionário desinfeta um centro comercial em Caxias do Sul, serra gaúcha, em 13 de maio de 2020

A pandemia do novo coronavírus está em uma fase crítica na América Latina nesta quarta-feira (13), com números recorde de mortes no Brasil e um aumento agudo de casos no Chile, enquanto várias cidades europeias avançam na suspensão do confinamento.

À medida que o coronavírus cede na Europa - onde causou 160.000 mortes - e as autoridades apresentam um plano para as férias de verão no hemisfério norte, a curva de contágios dispara na América Latina e ameaça colapsar os serviços sanitários.

Em um momento em que o número de mortos no mundo alcança os 294.000, a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que é possível que o vírus nunca desapareça.

Nas últimas 24 horas foram contabilizadas 749 novas mortes no Brasil pela pandemia, que já matou 13.149 pessoas no país.

Com mais de 11.000 infectados em um único dia, o Brasil contabiliza 188.974 casos, o país mais atingido da região, pois acumula quase metade do número de contágios da América Latina e do Caribe, que nesta quarta-feira passou dos 400.000.

O Peru segue o Brasil, com 76.306 contágios e 2.169 falecidos, e o México, com 38.324 casos e 3.926 mortos.

Na terça-feira, a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) advertiu que os sistemas de saúde do Rio de janeiro e de Lima estão "no limite" e nesta quarta, médicos e enfermeiros protestaram em várias cidades peruanas para denunciar a falta de itens de proteção.

No Chile, as autoridades decretaram quarentena total em Santiago depois que foram registradas nesta quarta 11 novas mortes e 2.660 casos de COVID-19 em 24 horas, 60% a mais do que no dia anterior. O país tem 34.381 contagiados e 346 falecidos.

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, anunciou que já se vê luz no fim do túnel. Em uma primeira fase, 269 municípios em 15 dos 32 estados mexicanos que apresentam muito poucos casos positivos, retomarão as atividades de trabalho e vão retomar as aulas a partir de 18 de maio.

Em um momento em que empresas e governo buscam freneticamente uma cura e uma vacina contra o coronavírus, a Bolívia se aventurou a autorizar um medicamento antiparasitário, frequentemente utilizado em animais, para tratar o vírus.

- UE tenta salvar férias de verão -

Enquanto o movimento voltava pouco a pouco às ruas e aos comércios da Europa, a Comissão Europeia urgiu nesta quarta-feira um retorno progressivo do turismo com a suspensão gradual das restrições de circulação devido ao novo coronavírus, com o objetivo de salvar a temporada de verão.

"Não vai ser um verão normal, mas se todos cumprirmos com a nossa parte, não temos que enfrentar um verão presos em casa ou totalmente perdido para a indústria do turismo", afirmou Margrethe Vestager, vice-presidente da Comissão.

Bruxelas propôs aos 27 países da União Europeia (UE), responsáveis por suas políticas domésticas, uma abordagem coordenada para suspender as restrições nas fronteiras, que seja "gradual" e "sem discriminação" entre países ou cidadãos.

É que o turismo representa mais de 10% do PIB da UE e quase 12% dos empregos no bloco, lembrou o Fundo Monetário Internacional (FMI), que advertiu para a "dependência" de países como Espanha, Itália e Grécia neste setor.

Áustria e Alemanha já anunciaram que preveem restabelecer a partir de 15 de junho a livre circulação em sua fronteira comum, fechada desde meados de março.

- EUA acusa China de tentar roubar pesquisas -

Nos Estados Unidos, país mais afetado pela pandemia, com 1.389.935 contagiados e 84.059 mortos, a capital, Washington, anunciou que prorrogará até 8 de junho a ordem para as pessoas ficarem em casa.

O presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano) advertiu que podem ser necessárias mais medidas de estímulo e que os danos causados pela pandemia do novo coronavírus à economia americana poderiam ser "duradouros".

Este alerta derrubou os mercados europeus e também atingiu Wall Street.

No meio desta crise, as autoridades americanas acusaram hackers ligados a Pequim de tentar roubar "propriedade intelectual e dados públicos relacionados a vacinas, tratamentos", vinculados com as pesquisas sobre a COVID-19.

Apesar do avanço do vírus nos Estados Unidos, a pandemia representou uma queda no registro de acidentes e o adiamento de procedimentos eletivos, razão pela qual muitos hospitais têm demitido profissionais de saúde.

"No sul da Flórida não há pacientes suficientes, o hospital não pode pagar todo o pessoal que não tem nada para fazer", conta à AFP Dayna James, de 40 anos, que costumava trabalhar em uma emergência de um centro de saúde de Miami dois dias por semana. "É triste, é a minha vocação, é minha carreira há 17 anos".

- A ameaça de uma segunda onda -

A Rússia, segundo país com mais casos, registrou mais de 10.000 contágios adicionais em 24 horas, após um relaxamento nas medidas de confinamento.

O governo russo reconhece 2.212 mortes causadas pela COVID-19, mas muitos críticos do Kremlin suspeitam que as autoridades atribuam outras causas a mortes por coronavírus.

Na Grã-Bretanha, com 32.682 mortos e 226.463 casos, os cidadãos voltaram nesta quarta-feira ao trabalho em ônibus lotados e, inclusive, puderam jogar golfe no primeiro dia da flexibilização de um confinamento que continuará parcialmente até junho.

Em Hong Kong foram registrados nesta quarta dois contágios por coronavírus, pondo fim a um período de 24 dias sem a detecção de novos casos, despertando o temor de um ressurgimento da epidemia.

Na China continental, a cidade de Jilin, no nordeste do país, impôs o confinamento parcial após o aparecimento de novos casos, que também geraram o temor de uma segunda onda de contágios.

A OMS se mostrou "surpresa" com a falta de preparo de alguns países para enfrentar uma pandemia como a do novo coronavírus, declarou à AFP a encarregada de riscos infecciosos da organização, Sylvie Briand.

"Quando se compara, por exemplo, o que acontece na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, vê-se claramente que os países asiáticos estão muito mais preparados", disse, após lembrar que o aparecimento, em 2003, da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) "deixou cicatrizes importantes", tanto na saúde quanto na economia dos países asiáticos.

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