Crise da água no RJ: Entenda porque não ocorreria em São Paulo

Na foto, estação de tratamento de Guandu, da Cedae. (Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo)

Há três semanas, residências de 80 bairros do Rio de Janeiro e seis cidades da Baixada Fluminense têm de lidar com uma água barrenta e fétida saindo pelas torneiras, abastecidas pela Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos).

O motivo: contaminação por geosmina, um composto orgânico formado por carbono, hidrogênio e oxigênio, e produzido naturalmente por algas. Apesar das autoridades do Rio alegarem que a proliferação de geosmina é rara e natural, especialistas afirmam que a existência do composto pode indicar a presença de outros componentes tóxicos na água, provocados provavelmente pelo descarte irregular de esgoto. Toneladas de carvão ativado já foram despejadas na estação de tratamento de Guandu na tentativa de minimizar os impactos.

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), falou em “sabotagem”, “alarmismo” e deu uma semana de prazo para que a situação volte à normalidade. Enquanto isso, o preço da água mineral disparou e quem não tem como pagar é obrigado a consumir uma água que não é recomendada nem para animais.

Mas qual é a possibilidade de algo semelhante ocorrer no estado de São Paulo? Quase ZERO

A avaliação é do coordenador responsável pela Governança da Água e professor titular sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), professor Pedro Roberto Jacobi.

Segundo ele, a crise de água no Rio não pode ser explicada somente na proliferação da geosmina.

“É muito simples a resposta, apesar da complexidade que envolve a questão. A Cedae é uma companhia que já vem enfrentando um problema sério com uma proposta de privatização que não foi adiante. O problema ali é mais de gestão e de investimento. Concretamente, a diferença entre Sabesp e Cedae no que diz respeito à solidez de companhias é brutal”.

Na perspectiva de Jacobi, o trabalho preventivo de detecção da contaminação por geosmina tem menor influência na crise do que o sucateamento que a Cedae vem atravessando ao longo dos anos. “Ambos fatores (demora na detecção do problema somado ao esgoto perto do ponto de captação) têm peso nisso. Mas além disso houve uma enorme incompetência e um problema de eficiência. Se isso tem o propósito de estimular a sua privatização, só o tempo dirá”, afirma o docente.

A responsabilidade maior disso, segundo Jacobi, está na constante reformulação dos quadros políticos responsáveis pela administração da Cedae.

“O Estado de São Paulo não tem tido mudança de partidos políticos no governo e isso é fundamental. A base do corpo técnico tem sido a mesma por anos e anos. Já no Rio, tivemos mudanças partidárias constantes. (...) Tudo isso implica numa forma de dizer que toda crise financeira e serviços públicos altamente deteriorados não iria passar em brancas nuvens. Se reflete nas mais diferentes questões, como estamos vendo agora”, finaliza.

Amostras da água foram analisadas pela Vigilância Sanitária. (Foto: Divulgação)

A equipe do Yahoo Notícias repassou, na terça-feira (21), a avaliação de Jacobi à assessoria de imprensa da Cedae, questionou se a companhia concordava e solicitou um posicionamento da empresa com relação ao caso. Não houve resposta até a publicação desta matéria.