Crise da Cracolândia e aumento de roubos pautam pré-campanha em São Paulo

99034265_BRASIL - São Paulo SP 11-05-2022 Polícia faz operação contra o tráfico na nova Cracolândi.jpg

SÃO PAULO — Na esteira do aumento de roubos e furtos no estado de São Paulo e da crise na cracolândia, pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes elencaram a Segurança Pública e a dependência química como agendas prioritárias em suas pré-campanhas ao governo paulista.

As propostas incluem desde aumento do efetivo policial e da remuneração dos agentes até investimento em equipamentos de inteligência. Para Rafael Alcadipani, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apesar da prioridade ao tema, a maior parte das propostas são eleitoreiras e carecem de evidências científicas.

— Muitos candidatos usam a segurança pública como chamariz. Mas, na prática, as campanhas têm poucas pessoas que entendem do assunto, o que resulta em propostas fracas — afirma especialista, acrescentando. — Deveríamos estar discutindo a segurança, e própria questão da cracolândia de forma integrada com outras secretarias, com uma dimensão econômica e social, mas infelizmente não é o que acontece. Sobretudo num estado conservador como São Paulo, os candidatos falam aquilo que o povo quer ouvir: policiamento padrão rota e o discurso do "bandido bom é bandido morto". Mas nada disso resolve o problema.

O interesse pelo assunto ocorre num momento em que o estado registra alta de 28,5% em furtos e crescimento de 7,4% em roubo no primeiro semestre do ano na comparação com o mesmo período de 2021. Ao mesmo tempo, a capital paulista assiste à situação da cracolândia ganhar novos contornos, com a mudança de endereço e a ações policiais que já deixaram uma pessoa morta e fez o Ministério Público de São Paulo abrir investigação.

Ex-prefeito de São Paulo e candidato mais bem colocado na última pesquisa Datafolha, com 29% das intenções de voto, Fernando Haddad (PT) quer criar um plano de metas para reduzir a criminalidade e aumentar a resolução de crimes. O cumprimento dessas metas, diz ele, vai estar atrelado à valorização dos policiais civis e militares, o que inclui melhorias de carreira, formação continuada e investimento em inteligência e tecnologia.

Para a cracolândia, a aposta de Haddad é no programa “De Braços Abertos”, implantado em sua gestão na capital e que tem como foco oferecer moradia, trabalho e tratamento psicossocial aos usuários de drogas. Segundo o petista, a iniciativa será potencializada na versão estadual, porque, se eleito governador, ele terá o comando das polícias civil e militar e poderá combater o grande traficante.

Márcio França, pré-candidato do PSB, retomou na campanha deste ano a proposta de transferir a Polícia Civil da Secretaria da Segurança Pública para a pasta da Justiça. Enquanto esteve à frente do governo de São Paulo, em 2018, o ex-governador tentou tirar a ideia do papel, mas acabou desistindo após ser alvo de críticas de especialistas do setor. Hoje, a medida tem o apoio de associações e sindicatos de delegados, mas ainda não é um consenso. O principal intuito de França com a mudança é dar mais estrutura para a Polícia Civil, do ponto de vista de material e tecnologia, e melhorar o atendimento à população e a investigação dos crimes. Ele também deseja trabalhar na reestruturação de carreira e na valorização profissional, mas ainda está estudando propostas.

A solução do pessebista para a cracolândia ainda está sendo estudada, mas a proposta é reorganizar o melhor da experiência do programa "Recomeço" com o “De Braços Abertos”. Isso inclui a ampliação de rede de comunidade terapêutica e do número de leitos do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), além da reorganização da inteligência da polícia na região da cracolândia para coibir fornecimento de drogas no fluxo. O pré-candidato se diz contrário à estratégia atual de dispersão e também deve adotar, se eleito, a não exigência da abstinência para o atendimento dos usuários.

Representante de Jair Bolsonaro (PL) na disputa paulista, o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse, por meio de nota, que solucionar a situação da cracolândia é uma prioridade em seu plano de governo. Segundo ele, novas ideias estão sendo estudadas e serão divulgadas em breve.

Em falas recentes à imprensa, o pré-candidato fez um aceno aos profissionais da Segurança Pública ao dizer que pretende acabar com o uso de câmeras nas fardas policiais, considerada uma das principais ações da gestão de João Doria (PSDB) na área e responsável pela redução das mortes por intervenção policial. Como mostrou O GLOBO, três dos pré-candidatos mais bem colocados nas pesquisas apontaram problemas na inovação implantada na gestão de Doria. Recentemente, o ex-ministro também acusou o governo paulista de fazer um “pacto com o crime organizado, de não combatê-lo”.

O ex-ministro disputa o voto do público conservador com o governador Rodrigo Garcia (PSDB), cuja pauta da segurança se tornou bandeira eleitoral. Pressionado pelas pesquisas, nas quais ainda aparece distante da liderança, com 6% dos votos, Garcia tenta descolar sua imagem de Doria, que tinha antipatia dos eleitores mais à direita em razão do discurso contra Bolsonaro.

A maior expressão dessa ofensiva foi a declaração que “bandido que levantar a arma contra polícia vai levar bala”. O atual governador anunciou uma série de medidas desde que assumiu o Palácio dos Bandeirantes. A principal foi a Operação Sufoco, em que dobrou o efetivo policial nas ruas por meio da contratação de jornadas extras de trabalho com o objetivo de combater os falsos entregadores de aplicativo e o “golpe do PIX”. Recentemente, ele liberou a contratação de 1,5 mil agentes para escolta de presos, retomou o pagamento de bônus para policiais civis e militares e entregou 490 submetralhadoras à Polícia Militar.

Em relação à cracolândia, a gestão de Garcia tem adotado a estratégia de combate ao tráfico por meio da dispersão do fluxo, criticada por especialistas sob o argumento de que dificulta trabalho de saúde e assistência social.

Felício Ramuth (PSD) defende a instalação de 30 mil câmeras de segurança com inteligência nas ruas do estado, medida que colocou em prática durante sua gestão como prefeito de São José dos Campos. Os aparelhos, segundo ele, fazem leitura de placas e reconhecimento facial, o que possibilita a identificação de foragidos da Justiça. Ramuth ainda diz que, se eleito, irá incentivar a integração das forças de segurança, promover a valorização do salário inicial das polícias civil e militar e investir em infraestrutura para a Polícia Civil. Para resolver a cracolândia, ele defende que é preciso estudar uma solução junto com governos municipal, estadual e federal, além de igrejas e entidades que atuam na região.

O ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro Abraham Weintraub (Brasil 35) foca na atuação contra o crime organizado. Se eleito, diz que irá firmar e fortalecer pactos bilaterais entre o estado de São Paulo e os países que são afetados pelo crime organizado para coibir atuação de facções criminosas e das máfias. Também promete fortalecer o contato com países como Itália e Estados Unidos, visando a acabar com a principal rota de cocaína do mundo, e ampliar os acordos internacionais de cooperação jurídica para fins de extradição de membros de máfias e de demais grupos de tráfico de drogas. Já em relação à cracolândia, declara que é preciso priorizar o combate ao crack, promover ações contra a cocaína, viabilizar meios para a internação compulsória de alguns grupos de usuários e prender e manter preso o traficante.

Vinicius Poit, do Novo, propõe aumentar o efetivo policial por meio de novos concursos policiais, além de melhorar a remuneração, o treinamento contínuo, a capacitação e o apoio psicológico aos agentes de segurança. O pré-candidato, que ainda ouve policiais para aprimorar as propostas, também considera importante a maior integração das polícias e a criação de um boletim de ocorrência unificado. A solução da cracolândia, diz ele, deve ser interdisciplinar e ir além da abordagem policial. Poit ainda defende oferecer tratamento para essas pessoas, moradia e oportunidade de trabalho que permita a reinserção na sociedade.

Altino Junior (PSTU) diz que resolver o problema da Segurança Pública no estado passa por reduzir ou acabar com a miséria no estado. Entre as propostas, está a taxação da fortuna dos bilionários. Se eleito, diz que passará o controle da Polícia Militar e Civil para a sociedade. Assim, representantes dessas guardas, como delegados, seriam eleitos pela comunidade. Sobre a questão das drogas, Altino, defensor da legalização das drogas no país, diz que é preciso uma reforma urbana, com mais moradia no centro da cidade, unificação das áreas de assistência social da saúde do município e do estado e apoio de entidades ligadas a movimentos sociais que já atuam com a população de rua.

CONFIRA AS PROPOSTAS:

Fernando Haddad (PT)

Segurança Pública: plano de metas de redução e resolução de crimes associado à valorização do profissional da Segurança Pública, formação continuada e investimentos em equipamentos de inteligência.

Cracolândia: retomar o programa “De Braços Abertos”.

Márcio França (PSB)

Segurança Pública: retirar a Polícia Civil da pasta da Segurança Pública para melhorar o atendimento à população e a investigação dos crimes

Cracolândia: reorganizar, em um só programa, o melhor “Recomeço” e do “De Braços Abertos”.

Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos)

Estuda novas ideias e diz que pretende divulgá-las em breve.

Rodrigo Garcia (PSDB)

Segurança Pública: aumento do efetivo nas ruas, ampliação da criação dos Batalhões Especiais padrão Rota, ampliação do efetivo por meio de novos concursos, implantação de novas tecnologias, valorização do trabalho policial, pagamento de bônus por mérito e produtividade policial e ampliação das Delegacias da Mulher 24 horas.

Cracolândia: combate ao tráfico de drogas e atendimento de saúde aos dependentes químicos.

Felício Ramuth (PSD)

Segurança Pública: instalar 30 mil câmeras de segurança com inteligência nas ruas do estado, incentivar a integração das forças de segurança, valorizar o salário inicial dos policiais civis e militares e investir em infraestrutura para a Polícia Civil.

Cracolândia: reunir poder público (prefeitura, governo estadual e federal), igrejas e entidades que atuam na região para, juntos, elaborarem uma solução mais efetiva.

Vinicius Poit (Novo)

Segurança Pública: aumentar o efetivo policial por meio de novos concursos políticos, melhorar a remuneração dos agentes de segurança, o treinamento contínuo, a capacitação e o apoio psicológico. Também defende maior integração das polícias e boletim de ocorrência unificado

Cracolândia: oferecer tratamento, moradia e oportunidade de trabalho aos usuários de droga

Abraham Weintraub (Brasil 35)

Segurança Pública: firmar e fortalecer pactos bilaterais entre o estado de São Paulo e os países que são afetados pelo crime organizado e ampliar os acordos internacionais de cooperação jurídica para fins de extradição de membros de máfias e de demais grupos de tráfico de drogas.

Cracolândia: priorizar o combate ao crack, promover ações contra a cocaína e viabilizar meios para a internação compulsória de alguns grupos de usuários. Prender e manter preso o traficante

Altino Junior (PSTU)

Segurança Pública: reduzir a miséria no estado e passar, para a sociedade, o controle das polícias Militar e Civil

Cracolândia: reforma urbana para garantir mais moradias no Centro, unificação de assistência social da saúde do município e do estado, apoio de entidades que atuam na região com esse público.

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