Crise dificulta ida de torcedores latino-americanos à Copa do Catar

Icléia Pessoa, bancária e torcedora fanática do Corinthians, combinou com uma amiga depois de assistir de São Paulo à Copa do Mundo da Rússia: juntariam dinheiro pelos quatro anos seguintes para irem ao Mundial no Catar. Seguiram firmes no projeto e chegaram aos R$ 20 mil planejados para a viagem.

Em janeiro deste ano, quando foi ver o preço das passagens aéreas, o primeiro susto: R$ 8 mil ida e volta. Mais tarde, o novo baque, ao se deparar com as hospedagens mais baratas disponibilizadas pela Fifa. Nos grupos de torcedores dos quais ainda faz parte, a opção ganhou o apelido de “Cohab”, referência aos conjuntos habitacionais voltados para a população de baixa renda. O custo da diária: 100 dólares por pessoa, aproximadamente R$ 500.

Ainda assim, Icléia encarou a primeira rodada de venda de ingressos para o Mundial. Foi sorteada e comprou lugar na Copa. Mas viu os preços subirem e colocou na balança se valeria diminuir o tempo da viagem. No fim, desistiu. Hoje, tenta passar adiante o ingresso e trocou as areias do Oriente Médio pelas da Bahia, onde passará as férias.

— Estou mais conformada agora. O Catar é um lugar complexo também, não pode beber, tem a questão das mulheres. Fico repetindo isso depois que desisti — admite.

Icléia não está sozinha na frustração. No último dia 29, a Fifa divulgou a lista dos dez países com mais residentes comprando ingressos para a Copa do Mundo do Catar. Além de quem vive no país-sede, citou moradores de Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Índia, Arábia Saudita, Espanha, Emirados Árabes e EUA.

Chamou a atenção a ausência de brasileiros, argentinos e mexicanos, especialmente depois que, no fim de abril, a entidade divulgou uma relação dos países com mais pedidos por ingressos. Residentes de Argentina, Brasil e México estavam em primeiro, segundo e quinto lugar, respectivamente.

Os torcedores dos três países latino-americanos foram presença marcante nos dois últimos Mundiais. Em 2014, no Brasil, por motivos óbvios. Em 2018, foram novamente numerosos. Estiveram entre os quatro países com mais torcedores na Rússia, atrás apenas dos próprios russos. Mas este ano não devem estar tão presentes no Catar.

Se a paixão dos latino-americanos pelo futebol não diminuiu e também não falta favoritismo às seleções de Brasil e Argentina, fortes candidatas ao título, o que está escasso por aqui é dinheiro. A crise econômica causada pela pandemia e mais a guerra na Ucrânia atingem os bolsos ao redor do planeta. Mais ainda de quem está na base da pirâmide da economia global.

— Os países emergentes e os de renda média ou baixa como os da América Latina são economicamente mais frágeis, por isso os choques os afetam mais. A perda de poder de compra, de renda em termos reais, é a principal variável que expressa o efeito colateral da pandemia e da guerra — explica Gabriel Barros, economista-chefe da Ryo Asset.

Ele afirma ainda que, por mais que as camadas mais vulneráveis sofram os maiores efeitos da crise, o momento adverso é sentido também pela classe média. É justamente esse o público que tem mais dificuldades para assumir gastos com a ida a uma Copa do Mundo.

A desvalorização da moeda frente ao dólar também é um problema para os latino-americanos. Na Argentina, o peso atingiu o menor patamar de sua história perante a moeda americana em outubro do ano passado. O câmbio segue sendo um grande problema por lá.

— Nem se fala muito sobre ir à Copa por aqui — afirma Hernán Sisto, repórter da Tyc Sports, da Argentina — Com o câmbio do jeito que está, é quase impossível.

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